A Guerra entra-nos em casa todos os dias. De que forma ela mexe connosco?

Vanessa Santos

Psicóloga Clínica, inscrita na Ordem dos Psicólogos com o n.º 24323

Depois de dois anos de pandemia, com os óbvios impactos que tiveram nas nossas vidas, voltou a guerra. A invasão da Ucrânia por parte da Rússia, e a amplificação informativa dos últimos dias, tem vindo a gerar ansiedades, medo ou impotência em todo o mundo. Razão para enquadrarmos este assunto na temática, cada vez mais relevante, da saúde mental.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, cerca de 70% da população já vivenciou, ao longo da vida, pelo menos um evento potencialmente traumático. O trauma é definido como a “exposição a ameaça de morte, morte real, ferimento grave ou violência sexual”.

Então qual é a diferença entre um evento traumático e um evento potencialmente traumático? Na prática, em termos do evento em si, não existe diferença: é uma situação que tem em si o potencial de traumatizar pela violência dos acontecimentos. O que a tornará efetivamente traumática é a forma como o processamos, a forma como o nosso corpo reage a essa ameaça. Assim, uma mesma situação pode constituir um trauma para uma pessoa mas não para outra, pois existem muitas variáveis individuais que podem atenuar ou exacerbar a situação.

Nestes últimos dias, ninguém ficou indiferente à guerra que está a acontecer na Ucrânia. Surgem associados sentimentos de tristeza, medo, revolta, frustração, impotência. Muitos já devem ter notado alterações no vosso funcionamento: ansiedade aumentada, dificuldades de concentração, pensamentos ruminantes sobre este tema, alteração nos padrões do sono ou no apetite, sensação de sobressalto… Estas reações são normais tendo em conta a situação que é realmente preocupante.

Esta é de facto uma situação potencialmente traumática. E não o é apenas para os que estão a combater na guerra ou para os que estão a abandonar o seu país como forma de tentar sobreviver. O potencial traumático também poderá ser sentido por todos os que estão expostos, de forma diária e consistente, a informações e pormenores sobre a guerra.

O trauma pode ocorrer por: exposição direta, testemunhar uma situação, tomar conhecimento do que aconteceu a familiares ou amigos próximos ou exposição repetida ou extrema a pormenores adversos.

Hoje em dia, com todos os avanços tecnológicos, a qualidade de imagem e de som é muito elevada, o que faz com que tudo pareça ainda mais real e, portanto, mais perturbador, mesmo estando a ver o que acontece numa televisão, telemóvel ou tablet. É de extrema importância moderar o consumo de notícias, caso contrário pode levar a uma grande sensação de mal estar psicológico, ansiedade ou mesmo trauma.

Acima de tudo, quero que saibam que esta sensação de preocupação e ansiedade aumentada é uma reação normal a tudo o que está a acontecer, aceitem as vossas emoções. Agora, mais do que nunca, é de extrema importância a manutenção de rotinas saudáveis e tranquilas. No meio de tanta instabilidade e incerteza, a previsibilidade das rotinas é fundamental. Partilhem os vossos pensamentos e sentimentos com pessoas próximas, estamos todos a ser afetados por esta situação, embora de formas diferentes. Moderem a exposição a notícias e dediquem-se a atividades que vos são agradáveis e vos trazem tranquilidade.        

Ainda assim, é possível que esta situação seja um gatilho para vocês e desperte reações muito intensas ou mesmo que faça reemergir traumas antigos. Nesse caso, não hesitem em procurar ajuda profissional. Infelizmente, não conseguimos controlar a guerra, nas conseguimos gerir o impacto que ela tem em nós.

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