A sua criança sangra muito do nariz? A médica explica porquê

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Nós bem nos lembramos como era connosco, certo? Volta e meia, lá começávamos a fungar e o nariz a pingar sangue. Um pouco de papel higiénico no nariz, cabeça para trás, cinco minutos sossegados e estava tudo bem. Os tempos passaram mas é assim também com as nossas crianças. Mas porquê? Porque sangramos tanto do nariz? Marta Canas Marques, otorrinolaringologia do Hospital Cruz Vermelha, explica.

O nariz é uma área com grande irrigação sanguínea, onde confluem muitas artérias e veias que atravessam o pescoço. Esta confluência é particularmente rica na zona mais anterior do septo nasal, o chamado plexo de Kiesselbach ou área de Little, onde são inúmeras as ligações entre múltiplas pequenas artérias.

O nariz é a via respiratória preferencial e tem também a função de humidificação, de aquecimento e de purificação do ar inspirado. Está em contacto permanente com muitos agentes agressores (temperaturas extremas, poeiras, alérgenos, vírus, bactérias, entre outros) tendo necessidade constante de reestruturação. Assim, além de uma porta de entrada de doenças, é também um órgão vulnerável a outras situações como a hemorragia.

A hemorragia nasal, cientificamente designada por epistáxis, é uma das urgências em otorrinolaringologia mais frequentes, afetando pelo menos 60% da população geral. A epistáxis tem dois picos de incidência, um em crianças, geralmente antes dos 10 anos e outro em adultos com mais de 40 anos.

A causa da hemorragia nasal é quase sempre desconhecida, ou seja, idiopática. Contudo, a manipulação digital do nariz, o nose-picking, é uma frequente forma de trauma direto da mucosa nasal, que muitas vezes passa despercebida ao próprio e aos pais. Esta manipulação pode originar crostas e colonização bacteriana da mucosa nasal causando uma inflamação de baixo grau com hipervascularização e fragilização vascular, que podem condicionar hemorragia.

As crianças têm o sistema imunológico em desenvolvimento e são assim mais propensas a infeções respiratórias e a crises de alergia, à medida que contactam com diferentes microrganismos e alérgenos. Por exemplo, a rinite é uma inflamação da mucosa nasal resultante da reação do sistema imunológico a estas “novidades” do ambiente externo, que se manifesta pelo aumento das secreções nasais, congestão nasal causada por edema dos tecidos, espirros e comichão. A inflamação com aumento de vascularização, a formação de crostas, o assoar, o coçar, e espirrar, são mais desafios que o nariz tem de enfrentar, que sendo muito vascularizado, tem maior risco de sangrar.

Apesar de frequente, a epistáxis nas crianças é raramente um quadro clínico grave. Na maioria dos casos, o foco da hemorragia é no plexo de Kiesselbach e portanto, facilmente controlada com pressão digital das narinas durante um período de 5 a 10 minutos. No entanto, a recidiva é frequente, sendo o principal motivo de stress e de diminuição na qualidade de vida da criança e dos pais. Nestas circunstâncias é aconselhada a observação por um Otorrinolaringologista. Não há um protocolo universal na abordagem da epistáxis, sendo a avaliação e tratamento personalizados, que geralmente passa pela hidratação com pomadas ou eventualmente cauterização química.

Este artigo foi publicado no âmbito da parceria editorial entre o Hospital Cruz Vermelha e o site Escolher Viver

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