As perguntas que nunca te farei… ou “dizer tudo como os malucos”

Nuno Azinheira

Diretor do Escolher Viver

Há uma espécie de convenção popular que aprendeu a considerar que as pessoas corajosas são aquelas que não têm medo das palavras e que “dizem tudo como os malucos”. Pois, deixem-me que vos diga que não. Não, não e não. Ser corajoso é ser inteligente. Ser corajoso é também ser empático.

Quem nos disse que “dizer tudo como os malucos” é bom sinal? Onde está isso escrito? Em que convenção, em que manual de boas maneiras? “Maluco”, segundo o dicionário, é aquele que não tem o juízo todo. Ou o que perdeu a razão ou apresenta distúrbios mentais. Do ponto de vista metafórico, é um estouvado ou extravagante. Um estroina, enfim. Ou eu não percebo nada de palavras e dos seus significados, e não creio ser essa questão, ou em nenhum momento ser como um maluco pode ser um elogio. Uma coisa é ter um comportamento maluco, outra é ser maluco. Assim sendo, aqui chegados, não vejo como “dizer tudo como os malucos” seja algo digno de merecer elogios.

Aprendi a defender a Liberdade, ou não tivéssemos nascido ambos no mesmo ano. Não abro mão dela. Portanto, não entendam esta crónica em jeito de desabafo como uma tentativa de cercear as liberdades individuais de cada um ou limitar a liberdade de expressão de alguém. Mas à medida que os anos passam, vou tendo, eu próprio, mais preocupações com o que digo e, sobretudo, com a forma como digo. Mesmo no contexto de um programa de opinião, como o que faço há três anos e meio no “Passadeira Vermelha”, contar-se-ão pelos dedos de uma mão as vezes que terei sido deselegante. Não juro que não tenha acontecido, mas procuro dar a minha opinião, medindo bem o peso das palavras. Sou alguém que comunica no espaço público há mais de 30 anos. Sou professor há mais de dez. Tenho, por isso, especiais obrigações e o dever do respeito pelos outros.

O conteúdo é rei, mas a forma é tudo. Eu posso dizer tudo o que penso sem ferir os outros. Posso ser divertido, sarcástico, irónico, sério, assertivo, sem perder o pé, sem invadir o outro. Vem isto a propósito da cada vez menor paciência (deve ser da idade…) que tenho para aqueles que fazem perguntas intrusivas, sem cuidar de saber que impacto terão eles nos outros.

Nós, os gordos, sabemos bem o que é ouvir da boca de um conhecido ou de um amigo perguntas do tipo: “Então, pá, e uma dietinha, não?” ou “Ouve lá, quando é que emagreces?”. Ou mesmo um cru “Quanto é que pesas?”. Quando eu era miúdo adolescente, tinha um amigo na rua onde morava. Sempre que havia festas de aniversário em casa dele, era certo e sabido que um casal de primos, que felizmente só aparecia de ano a ano, estaria presente. E invariavelmente, o cumprimento era o mesmo: “Ena pá, estás grande. Quanto é que pesas?” ou “Quando é que fazes uma dieta? Isso já é de mais”. Imaginam o impacto que aquilo tinha em mim. No início, baixava a cabeça e tentava esgueirar-me pelo primeiro buraco que conseguisse. À medida que os anos foram passando, fui levantando a cabeça. A última vez fui insolente: “Sim, eu sei que estou grande, porque tenho espelhos em casa. Vocês é que não têm dois dedos de testa”. E virei-lhes as costas. Nunca mais os vi, felizmente.

Há perguntas que não se fazem. Sobretudo, porque nunca sabemos o que motiva as pessoas. Por acaso, a minha obesidade sempre foi por razões alimentares. Mas, e se não fosse? E se fosse qualquer herança genética ou qualquer distúrbio de outro género? Há perguntas que não se fazem. É como aquelas perguntas típicas entre amigos. “Então pá, nunca mais te casas?” ou “Então, quando é que nos apresentas uma namorada?”. Quase apetece desejar que o desgraçado que ouve a pergunta, se encha de coragem e responda: “Uma namorada, nunca, mas posso apresentar-te um namorado. Queres?”

E o que me dizem à célebre pergunta “Eh pá, já tens 30 anos. Quando é que vem o primeiro filho?” Porra! Parem com essas perguntas. Mas por que raio há-de vir aí o primeiro filho? Há algum prazo de validade? E se aquela mulher não puder ter filhos? Sabemos isso? E se, mesmo podendo, não quiser ter filhos? É menos mulher por isso? Quem somos nós para julgarmos uma coisa íntima como essa? Quem somos nós para dizermos tudo como os malucos?

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1 Comment

  • Sempre ouvi dizer que quem faz essas perguntas, que revela uma dor em si próprio, por exemplo, quem pergunta algo relacionado com o peso, revela insegurança sobre o seu próprio peso. Algo relacionado com filhos ou relacionamento, mágoa no seu próprio relacionamento. Pelo menos é sempre a minha perspectiva sobre quem pergunta, e foi sempre certeira, Excelente ponto de vista.

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