As pessoas mais velhas têm necessidade de dormir menos?

Hospital Cruz Vermelha

Deitam-se tarde e acordam com as galinhas. Esta é a ideia que temos do sono da maior parte dos séniores. Mas o que é certo é que, cientificamente, não há razões para concluir que os mais velhos têm menos necessidade de dormir. Mas o seu sono é, normalmente, mais sobressaltado.

Antes de nos debruçarmos sobre a dinâmica do sono na população sénior, respondemos à pergunta formulada dizendo que não. De facto, os seniores têm a mesma necessidade temporal de dormir do que as restantes faixas etárias, no entanto o seu sono noturno está “cativo” de inúmeros mecanismos neuropsicofisiológicos que se vão modificando ao longo da nossa vida, alterando (num contexto de normalidade) o perfil do tempo.

Portanto, e tal como acima referimos, o “mito” segundo o qual os seniores dormem menos horas porque não necessitam de tantas como os mais jovens é uma inverdade. Na realidade, e em situação normal, os seniores dormem em média seis horas e meia, cerca de menos 20 minutos do que os adultos entre os 40 e os 55 anos e menos 45 minutos do que os jovens adultos entre os 20 e os 30 anos.

Abordemos agora (de modo breve e acessível) a questão dos mecanismos neurofuncionais do sono nos seniores, não fazendo do que se segue Teoria Geral Imutável, dado que todos nós temos diferentes dinâmicas de sono, sendo que cada pessoa está sujeita, face à variabilidade das suas condições de vida (num sentido lato do termo), a modificações temporais e estruturais do mesmo. Sabemos que após os 50/60 anos há uma tendência a ter um sono mais superficial em detrimento da regularidade das fases mais profundas e da fase paradoxal ou REM (devido à existência de movimentos rápidos dos olhos), sendo o sono mais fragmentado.

Por outro lado, há, não raro, uma maior dificuldade em adormecer. Estas circunstâncias adversas poderão traduzir-se em alterações do sono de que destacamos, pela sua frequência e impacto nefasto, quer ao nível da existência idiossincrática, quer no que respeita à vida de relação, a insónia que pode ser inicial, intermédia (dificuldade em manter o sono com despertares, mais ou menos frequentes) ou terminal (acordar cedo demais).

Essas mudanças estão relacionadas, principalmente, com alterações anatomo-fisiológicas dos receptores neuronais que se conectam com as substâncias químicas que sinalizam do sono (neurotransmissores) com destaque para a adenosina, a melatonina, o GABA, a galanina e a acetilcolina (na fase REM).  Assim sendo, e devido às referidas mudanças, podemos dizer que o encéfalo tem dificuldade para se aperceber do nosso grau de cansaço e, portanto, da necessidade para adormecer e ter um sono reparador. De referir, por outro lado, a existência mais ou menos frequente de outras duas alterações patológicas que ocorrem durante o sono dos seniores, sendo que a segunda é de elevada perigosidade. Referimo-nos ao síndroma das pernas inquietas e à apneia obstrutiva do sono.

E como poderão compensar os seniores o seu sono, potencialmente, “atribulado” pelas alterações acima referidas e condicionam a qualidade? Bom, haverá sempre a sesta durante a tarde, que deverá durar, aproximadamente, entre 20 e 30 minutos, trazendo confirmados benefícios neuropsicofisiológicos à população sénior.

Enfim, muito mais haveria para dizer mas a natureza destas linhas não apela a uma linguagem demasiadamente técnica, nomeadamente no que concerne à neurofisiologia e neuroquímica do sono. Já agora, tenham sonos reparadores independentemente da vossa idade.

______________________________________________________________

Este texto é da autoria de Manuel C. R. Domingos,
Neuropsiquiatra do Hospital Cruz Vermelha Portuguesa

Este artigo foi publicado no âmbito da parceria editorial entre o site Escolher Viver e o Hospital Cruz Vermelha

Outras histórias que vai querer ler

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado.