Como a sua alimentação pode evitar um ataque cardíaco ou um derrame cerebral

João Rodrigues

Nutricionista inscrito na Ordem dos Nutricionistas com a cédula 3657N

A hipertensão é um problema de saúde pública muito grave que, em Portugal, afeta mais de 30% da população. No entanto, apesar da sua gravidade, infelizmente trata-se de algo que é encarado com normalidade por parte de quem sofre da mesma. O facto de ser uma doença silenciosa, e, de uma maneira geral, controlável com facilidade através da medicação, contribui de forma muito significativa para a indiferença que a hipertensão causa na população em geral e, em particular, por quem sofre da mesma.

Em Portugal estima-se que a percentagem de hipertensos possa ser de cerca de 30% (ou mais!), ou seja, quase 1 em cada 3 Portugueses sofre deste problema. No entanto, nunca é de mais destacar que estou a falar do problema de saúde que, de forma direta e indireta, mais contribui para a mortalidade total. De entre as suas possíveis consequências, há a destacar as doenças cardiovasculares, como o enfarte agudo do miocárdio (também conhecido como “ataque cardíaco”) e os acidentes vasculares cerebrais, ou AVC, que incluem as chamadas “tromboses”, e ainda as hemorragias cerebrais (também chamadas de “derrames cerebrais”). Em todos estes casos a hipertensão arterial é um dos seus principais fatores de risco… Ou seja, como se pode constatar, uma pessoa hipertensa tem que ter consciência de que tem uma doença grave, que deve ser encarada exatamente desta forma!


São muitos os fatores que contribuem para a presença de hipertensão, sendo que a alimentação é, seguramente, um deles. De entre os fatores alimentares, o mais conhecido, e possivelmente o mais importante, é o consumo excessivo de sal. No entanto, há outros fatores alimentares que contribuem para esse efeito, havendo também nutrientes e outros compostos bioativos com o efeito contrário. Além disso, a alimentação pode ser também um aliado fundamental para minimizar o risco de aparecimento de determinadas consequências da hipertensão.


Um artigo publicado na revista científica American Journal of Clinical Nutrition procurou perceber qual a relação entre os níveis de vitamina A e o risco de AVC em pacientes com hipertensão. De uma maneira geral, foi observada uma relação inversa entre a presença de níveis adequados desta vitamina e a ocorrência de AVC.


Este artigo revela algo que me parece muito importante. O impacto que a alimentação tem não apenas no aparecimento das doenças mas também nas suas consequências é algo extremamente complexo, mas acima de tudo pode ser algo extremamente significativo. Neste contexto, tão relevante como saber prevenir a hipertensão (e não há dúvidas que o ideal é sempre prevenir a origem dos problemas!), é saber lidar com a mesma, de forma a que as consequências que daí podem surgir sejam menos frequentes e/ou menos graves. Convém não esquecer que nós somos, em grande parte, reféns da nossa genética, mas a forma como a mesma se manifesta não é uma inevitabilidade, mas sim uma consequência das escolhas diárias com que lidamos (incluindo obviamente a alimentação!). A nossa vida é um somatório de todas essas escolhas.

O sal, esse inimigo público

Apesar de a hipertensão ser tão frequente, ainda há muito por esclarecer acerca dos mecanismos que estão na base dessa doença. De qualquer das formas, tradicionalmente a hipertensão é tratada com medicamentos. E esses medicamentos normalmente o que fazem é aumentar a quantidade de urina produzida, ou seja, são diuréticos. Na realidade, essa é atualmente a forma mais eficaz (mas pouco específica) de controlar o problema. No entanto, isso não significa que não haja mais nada que não se possa fazer para diminuir o risco de aparecimento de hipertensão, ou para ajudar a manter os valores da tensão arterial normais.

Estima-se que cerca de metade das pessoas que sofrem de hipertensão arterial não têm o problema controlado. Obviamente que a alimentação terá impacto a esse nível, e é sobre isso que decidi escrever hoje… Quando se pensa na relação que existe entre a alimentação e a hipertensão, há algo que aparece em destaque: o sal. Quando se fala em sal, está-se a falar em sódio. 

O sódio é um eletrólito fundamental para o funcionamento do nosso corpo, mas se estiver em excesso promove a hipertensão arterial. Os níveis de sódio são controlados por outros dois eletrólitos, o potássio e o magnésio. Na realidade, a maior parte dos países desenvolvidos apresenta taxas de consumo de sódio elevadíssimas, enquanto que o consumo de potássio e magnésio é normalmente baixo. 

Em Portugal esse consumo excessivo de sal é “só” quase o dobro da quantidade máxima que deveria ser ingerida!!! Isto dá, no mínimo, que pensar… Portanto, uma recomendação alimentar óbvia para os hipertensos passa pela diminuição do consumo de sal. Claro que não estou a dizer que as pessoas que têm hipertensão devem deixar de ingerir sal, mas está provado que em média é possível reduzir em cerca de 30% a quantidade de sal nos alimentos sem que as pessoas se apercebam.

A redução na utilização de sal deve ser sempre efetuada de forma gradual, e dando tempo para que o nosso paladar se adapte ao novo sabor. Ao fim de algum tempo consegue-se resultados surpreendentes! Já agora, fica a informação acerca de quais são as principais fontes de sal em Portugal. Curiosamente não é o bacalhau, o queijo ou os enchidos.

As principais fontes de sal no nosso dia-a-dia são o pão, o arroz/massa/batatas e, acima de tudo, a sopa! Ou seja, a sopa que normalmente é um alimento fantástico, super-nutritivo e pouco calórico, acaba por nos dar quantidades de sal gigantescas. Da próxima vez que fizer sopa lembre-se disto, e reduza a quantidade de sal que utiliza… ?

Além da redução no consumo de sal, há muitas outras recomendações alimentares que podem ser postas em prática por pessoas com hipertensão. No entanto, não pense que existe uma fórmula mágica, ou seja, o que existem são alimentos que podem, de alguma forma, contribuir para que a tensão arterial não seja tão elevada. Além disso, o efeito normalmente não é imediato, ou seja, são necessárias várias semanas para começar a ver resultados. Alguns desses elementos incluem frutas, hortícolas, laticínios magros, leguminosas, frutos oleaginosos (pistácios, nozes, amêndoas, avelãs, etc), cereais integrais, gorduras insaturadas, entre outros.

Este conteúdo foi publicado originalmente no site Mundo da Nutrição, da autoria do nutricionista João Rodrigues, parceiro do Escolher Viver

Outras histórias que vai querer ler

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado.