Como reabilitar alguém com 80 anos depois de uma fratura do fémur?

Vanessa Santos

Fisiologista do Exercício Clinico e Doutorada em Atividade Física e Saúde Investigadora na Faculdade de Motricidade Humana

Com o avançar da idade, várias funções cognitivas e capacidades físicas tendem a deteriorar-se, como a mobilidade, o equilíbrio e a agilidade, levando a um aumento recorrente de quedas nos idosos. Aliado a esta deterioração física a fragilidade óssea e muscular também vão influenciar os maus resultados destas quedas, acabando a maior parte das vezes em fraturas.

Das fraturas mais comuns, as da extremidade proximal do fémur predominam no idoso, com incidência acima dos 60 anos, havendo um pico médio de incidência nos 80 anos, sendo até mais comum nas mulheres do que nos homens (num rácio de 3:1).  Estas fraturas, consequência da funcionalidade diminuída ou da osteoporose e da perda de massa óssea associada ao envelhecimento, são responsáveis por mais de 70% de todas as cirurgias por fraturas e correspondem à quarta causa de morte mais comum entre idosos.

O principal objetivo do tratamento destas fraturas é o rápido retorno do doente ao seu nível de funcionalidade anterior, uma vez que numa idade avançada a falta de movimento acelera o enfraquecimento dos músculos e piora a saúde geral. Assim, quanto mais tempo o doente passar sem tratamento, maior dificuldade terá em restabelecer a mobilidade e viver uma vida autónoma.

Normalmente, todos os doentes com fratura do colo do fémur são submetidos a cirurgia urgente, dentro das primeiras 24 a 48 horas, devido a estar associado a uma redução da mortalidade destes doentes no primeiro ano.

Mas e o que devem fazer no pós-operatório? Como deve ocorrer esta recuperação?

O mais indicado é possibilitar ao idoso condições de se levantar e se mover o mais rapidamente possível. A prática de exercícios deve acontecer desde o primeiro dia pós-operatório. Deve aprender a realizar exercícios respiratórios, ser encorajado a levantar sozinho e começar a andar o mais cedo possível. O apoio da fisioterapia deve ser iniciado ainda no internamento e continuar numa primeira fase de forma a estimular o retorno às atividades da vida diária. É fundamental para recuperar a mobilidade, funcionalidade básica, no alívio da dor, a manutenção ou restauração da amplitude de movimento das articulações, na redução do edema, o aumento de força muscular e na preservação de consolidação da fratura. Merecendo destaque as transferências e tomadas de peso corporais, mobilizações passivas, exercícios ativos-assistidos, ativos e resistidos, exercícios metabólicos, treino de equilíbrio e no uso de muletas.

Perda de massa magra

Após o momento agudo da lesão, e ao terminar a fisioterapia prescrita, o exercício físico deve ser mantido de forma a promover ainda mais ganhos físicos. Estima-se que em 12 meses após uma fratura de fémur, o doente apresente uma perda de 6% da massa magra corporal, por isso é evidente a necessidade do trabalho de força muscular.

O treino de força muscular, de equilíbrio, propriocepção e de postura devem ser o foco principal da continuação deste trabalho de reabilitação. Mas existem alguns cuidados a ter pós fratura. O aumento do peso sobre os membros inferiores deve ser progressivo e de acordo com a tolerância, e dependendo da estabilização da consolidação. É muito importante respeitar o nível de tolerância de dor e da intensidade do esforço, bem como no caso de restrições na amplitude do movimento, que esta não seja ultrapassada. O reforço muscular dos membros inferiores é essencial para uma estabilização da fratura e prevenção de futuros acidentes novamente.

Todo o exercício físico prescrito deve ter sempre em consideração a fase da recuperação em que o doente se encontra, as suas capacidades do momento e as limitações inerentes. Um acompanhamento por fisiologistas do exercício é fundamental, de forma a controlar a intensidade do treino, bem como prescrever as progressões adequadas e controlar os limites de mobilidade articular.


Vanessa Santos é fisiologista do exercício e autora do projeto Reabilita Coração

Outras histórias que vai querer ler

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado.