As dores de estômago têm muito que se lhe diga. Não desvalorize. Veja o que diz o médico

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Um jantar bem regado ou um almoço que se prolongou tarde fora. Quem nunca sentiu ter comido mais do que a conta e paga a fatura umas horas mais tarde com sensação de enfartamento? Só que às vezes as dores de estômago – tecnicamente chamadas de dispepsia – escondem maleitas maiores. José Mendonça Santos, Gastrenterologista no Hospital da Cruz Vermelha, explica quais os sintomas recorrentes de uma pessoa que possa ter este incómodo.

– O que são as dores de estômago?
José Mendonça Santos – Define-se como dispepsia a dor ou desconforto referidos ao abdómen superior, digamos, a zona central da barriga, entre o umbigo e as costelas. O desconforto pode corresponder a situações tão variadas como enfartamento, plenitude, saciedade precoce, distensão ou náuseas. Estes sintomas podem aparecer de forma continuada ou por surtos intermitentes e podem ser mais marcados após as refeições ou, pelo contrário, com fome, esta última situação mais habitual nos casos de úlcera duodenal.

– Quais as causas?
JMS – As causas são muitas, desde o que se chama vulgarmente uma ‘gastrite nervosa’, situação de difícil caracterização e sem possibilidade de comprovação – digamos que é o que sobra após exclusão de doenças que se possam demonstrar, como a úlcera gástrica ou duodenal, a gastrite erosiva, causada por medicamentos, como os anti-inflamatórios, cada vez mais tomados mesmo em automedicação, ou os medicamentos de ácido acetilsalicílico, usados cada vez mais, para além das situações de dores ou febre, como preventivo de doenças cardiovasculares (enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral isquémico / AVC, etc.), a gastrite a Helicobacter Pylori, uma bactéria que infecta o estômago de mais de 60% dos adultos, com maior prevalência nos mais velhos, infecção que, além da gastrite, á a causa principal das úlceras gástricas e duodenais e de cancro do estômago. A infecção é, geralmente, adquirida na infância mantendo-se em razoável co-habitação connosco, até uma altura em que, potenciado por outros factores – stress, tabagismo, álcool além do recomendado, exageros alimentares, etc, – pode ‘acordar’ da sua latência e começar a causar a gastrite e todas as posteriores evoluções da cascata do cancro gástrico – gastrite crónica – gastrite atrófica – metaplasia intestinal – displasia e cancro.  

– Há várias dores de estômago? Gases e dores de estômago são a mesma coisa?
JMS – Para além destas causas há muitas outras situações sem gravidade, mas não menos incapacitantes, como a acumulação exagerada de ar que, ao distender o estômago, causa dores. Este exagero de ar pode ser devido apenas a ansiedade – uma pessoa ansiosa tende a comer depressa, engolindo muito ar, mas também o tipo de alimentação e as susceptibilidades individuais, levam a produção excessiva de gases, formados pelo processo digestivo.

– Quais os sinais de alerta de que pode ser uma situação mais grave?
JMS – Os sinais de alerta são, em primeiro lugar, a idade (acima dos 45 anos), a gravidade e persistência das queixas – é diferente uma dor que alivia com um antiácido ou uma dor intensa e que não alivia –, a presença de outras queixas, como emagrecimento, a irradiação da dor para as costas, anorexia (perda de apetite) ou intolerância à comida, com náuseas e vómitos, aparecimento de anemia, etc. Se a dor persiste e não responde às medidas mais simples ou se tem mais de 40 anos deve ser realizada uma endoscopia digestiva alta, que consiste na observação do estômago através de um aparelho fino e flexível, com recolha de imagens através duma câmara de vídeo e transmissão electrónica para uma televisão. Este exame permite igualmente a recolha de amostras (biópsias) para definir o tipo de gastrite e a presença da já referida bactéria (Helicobacter Pylori), além da exclusão de tumor.

– Como se podem tratar?
JMS – Excluídas situações mais complicadas, como tumores – e Portugal é um País de elevada incidência de cancro do estômago – o tratamento é feito com inibidores da secreção ácida gástrica e substâncias que regularizam a motilidade gástrica.

Este conteúdo foi publicado no âmbito da parceria editorial entre o site Escolher Viver e o Hospital Cruz Vermelha

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