Cuidado com os snacks! Crianças não podem comer tudo só porque gostam

João Rodrigues

Nutricionista inscrito na Ordem dos Nutricionistas com a cédula 3657N

O excesso de peso infantil e a obesidade são preocupantes nas sociedades ocidentais. E Portugal não é excepção. Neste texto, o nutricionista João Rodrigues fala sobre a relação entre o peso das crianças e o consumo de snacks entre as refeições. Mães e avós: cuidado com o que dão às vossas crianças…

Quando se pensa num padrão alimentar saudável, é frequente dar-se muita importância ao que se come nas ditas “refeições principais”: pequeno-almoço, almoço e jantar. A prova disso mesmo é que elas são chamadas de “principais”. No entanto, na minha opinião essa forma de as tratarmos deve apenas refletir a quantidade de comida que é ingerida nas mesmas, e não a sua importância para o dia alimentar.

E porque é que eu digo isto? Porque uma alimentação saudável requer uma harmonia adequada entre tudo o que se come durante o dia. Por exemplo, não faz sentido eu consumir um almoço muito equilibrado e nutritivo, se depois a meio da tarde for comer um folhado misto e beber um refrigerante… Ou seja, estas refeições mais pequenas, ou se quiserem, os snacks que se comem entre refeições podem ter um peso enorme no balanço de tudo o que se ingere durante o dia.

O consumo de snacks é particularmente frequente nas crianças. E neste caso o seu impacto pode ser bem mais significativo do que nos adultos, devido a vários fatores. Em primeiro lugar, porque tradicionalmente as necessidades energéticas de uma criança são menores do que as da maior parte dos adultos, e por isso os snacks podem fazer mais estragos no dia-a-dia alimentar dos mais novos.

Em segundo lugar, porque o consumo de snacks pode comprometer a ingestão alimentar seguinte, criando por vezes desequilíbrios difíceis recuperar ao longo do dia. Por outro lado, para a maior parte das crianças também me parece fundamental a ingestão de pequenas quantidades de comida entre as “refeições principais”, de forma a evitar que as mesmas fiquem demasiado tempo sem comer (esta situação é particularmente evidente durante a tarde).

Snacks com muito açúcar

Sabe-se que atualmente os snacks que as crianças consomem são maioritariamente ricos em açúcar, gordura e/ou sal, e que tendem a ser pouco interessantes do ponto de vista nutricional. Devido a isso, tem vindo a ser estudada a relação que existe entre o consumo de snacks em crianças e o aparecimento de várias possíveis consequências negativas nas mesmas.

Recentemente foi publicado um artigo na revista Obesity, no qual se procurou perceber qual a relação entre o consumo de snacks em crianças com 1-5 anos e o peso das mesmas. Os resultados revelaram que, de uma maneira geral, a frequência de consumo de snacks parece ser um importante determinante do peso, principalmente em idades mais baixas (menos de 2 anos). Mais concretamente, as crianças que consumiam mais frequentemente snacks tinham tendência a ter excesso de peso ou obesidade.

Estes resultados são muito interessantes, pois revelam algo para o qual os pais/cuidadores não estão normalmente muito alerta. Qualquer alimento ingerido durante o dia tem potencial para interferir não apenas com esse dia alimentar, mas pode também desregular rotinas, alterando a forma de encarar a alimentação e, consequentemente, pode ter um efeito significativo na composição corporal da criança.

É fundamental que as pessoas percebam que as crianças não devem comer tudo, só porque gostam. É fundamental haver regras (com alguma dose de flexibilidade, claro), pois é na idade pediátrica que se cria uma consciência alimentar adequada, de forma a garantir um futuro a curto, médio e longo prazo muito mais equilibrado e saudável. Não tenho dúvidas que a qualidade, a altura de consumo e a quantidade dos snacks consumidos são uma parte muito importante na criação dessa consciência…

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