Dia da Asneira nas dietas? Sim ou não? Fomos ouvir médicos e nutricionistas

Nuno Azinheira

Diretor do Escolher Viver

Perder peso custa muito. É preciso mudar os hábitos alimentares, criar novas rotinas, resistir às tentações. Pode ser por 15 dias só para perder aqueles dois ou três quilos marotos de que não gostamos. Mas pode ser um trabalho a longo prazo, para perder gordura e ganhar saúde. E como manter o foco durante muito tempo? Há especialistas que defendem o chamado “dia da asneira”, mas há quem não goste dessas liberdades…

Liberdade ou sabotagem? O dia da asneira nos regimes alimentares está longe de ser consensual entre médicos, dietistas e nutricionistas. Há quem o defenda como um “momento libertador, que dá mais ânimo para os dias que se seguem”, mas há quem olhe para essa cedência como “um dia que pode ser suficiente para sabotar tudo o que foi feito até aí”.

É a opinião da nutricionista Patrícia Aguiar, 44 anos, que acredita que “as pessoas muito facilmente podem chegar a consumir o dobro das calorias prescritas no plano alimentar que estão a seguir”. É por isso que, embora defendendo “uma refeição livre e com consciência”, é contra a ideia instituída de um dia em que o paciente anda à solta, a comer o que quer. “A cozinha é um laboratório e por isso é importante diversificar as rotinas. Nas minhas consultas defendo uma alimentação variada, onde se pode comer um pouco de tudo. E é por isso que as minhas pacientes não suspiram pelo dia da asneira, já que as suas dietas também não são só de cozidos e grelhados”, afirma a nutricionista ao Escolher Viver.

Nos primeiros tempos, as pessoas precisam de barreiras que devem balizar o seu objetivo de perda de peso.

Natália Cavaleiro Costa, nutricionista

Também Natália Cavaleiro Costa não é particularmente entusiasta do dia da asneira. “Nunca falo dele proativamente em consulta”, assume ao nosso site. A nutricionista, de 41 anos, explica porquê. “É como dar alguma liberdade ao plano alimentar e eu acho que, pelos menos nos primeiros tempos, as pessoas precisam de barreiras que devem balizar o seu objetivo”. Natália Cavaleiro Costa, que é presença regular em programas televisivos, admite que há excepções: “Aniversários, casamentos ou épocas festivas são excepções. Aí, pode encher-se a barriga com tudo o que se gosta, mas depois, é preciso voltar ao plano no dia seguinte”.

Já a nutricionista Rita Pereira defende que o processo de perda de peso deve ser encarado “como uma maratona e não um sprint”. “Defendo um estilo de vida equilibrado e balanceado, pelo que será natural existirem refeições pontuais em que façamos algo diferente. Faz parte de um estilo de vida saudável e não deverá ser encarado como uma asneira ou um um erro”, afirma a nutricionista de 29 anos, que alimenta o seu Instagram como dicas úteis de reeducação alimentar.

Se houver refeições mais calóricas, que sejam feitas fora de casa, para que não existam sobras que possam interferir no retomar das rotinas.

Pedro Carvalho, nutricionista

O nutricionista Pedro Carvalho, professor universitário na Escola Superior de Biotecnologia da Católica do Porto, tem um conselho aos seus pacientes. “Se houver refeições mais calóricas e vistas como extras a um plano alimentar, devem ser feitas em contexto social, com família e amigos, e sempre que possível fora de casa, para que não existam sobras ou alimentos comprados que depois possam interferir no normal retomar de rotinas”, diz o clínico, que não defende um dia da asneira oficial e que conta já com vários livros publicados, entre eles “Os mitos que comemos”, ou “Comer, Crescer, Treinar”.

Diz-me a experiência que, em 90% dos casos, os pacientes não abusam no dia da asneira”

Fernando Póvoas, médico

O mais entusiasta defensor do “dia da asneira” é o médico Fernando Póvoas, responsável pelo emagrecimento de milhares de doentes, entre eles várias figuras públicas, e dono de duas clínicas, uma em Lisboa e outra no Porto. “Os meus planos de perda de peso e os das equipas que trabalham comigo contemplam um dia de pausa no rigor alimentar. E sabe porquê? Porque, diz-me a experiência, que em 90% dos casos, os pacientes não abusam nesse dia”, afirma ao Escolher Viver.

Póvoas, autor do livro “O Prazer de Emagecer”, sublinha que “não há nada que dê mais alegria a um obeso que está num processo de redução de peso do que ver os resultados e perceber que está a conseguir”. “E por isso é que a minha experiência me diz que o dia da asneira é visto como uma folga, que se for aproveitada não introduz grande problema no processo, mas que, na maior parte dos casos, não é aproveitada como tal”.

Ágata Roquete, que já vem em sete livros publicados e que chegaram a mais de 450 mil pessoas, também é apologista de um dia da asneira. Um não, dois. “Sábado e domingo são dias livres. Isto não significa que devam ser dias repletos de asneiras. Digamos que podem ser dias de maior relaxamento”, contou na apresentação do seu mais recente livro, “O Grande Livro da Alimentação Saudável”.

“Para mim, uma alimentação saudável é um estilo de vida, tal como vegetarianismo, por exemplo. E quando defino um plano de alimentação que pressupõe um estilo de vida saudável e uma alimentação equilibrada a longo prazo, defendo que ele deve ser cumprido durante cinco dias da semana”. Depois, o resto da semana fica para “os prazeres da vida”, entre eles a alimentação, diz a nutricionista, formada em Nutrição e Engenharia Alimentar pelo Instituto de Ciências da Saúde, que não defende a eliminação do pão dos regimes de perda de peso. “Eu nunca tiraria o pão de uma dieta. É um dos meus prazeres alimentares e nunca retiraria essa mesma satisfação a um paciente”, garante.

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