Diabetes. Carta aberta ao próximo governo

Jose Manuel Boavida e Joao Filipe Raposo

Presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal e Director Clínico da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal

É importante recordar que a diabetes continua a aumentar e que muito mais pode e deve ser feito para reduzir o seu impacto em Portugal. Não podemos baixar a guarda na luta sem tréguas contra esta pandemia. Com a crise pandémica, o nosso sistema de saúde evidenciou as suas fragilidades estruturais, debatendo-se com a escassez de recursos humanos e com a crescente desigualdade no acesso aos cuidados.

O peso crescente das doenças crónicas e o reconhecimento da diabetes como uma prioridade requer mudanças sociais, estruturais e organizacionais. Este é o momento! É a Organização Mundial de Saúde que o diz, é a União Europeia que o reforça.

A diabetes é uma doença complexa. É uma das principais causas de morte da nossa população e causa muitas das incapacidades mais temidas por todos nós. A evidência mostra-nos que a implementação de medidas de prevenção pode reduzir o risco de desenvolver diabetes e que o investimento em rastreios, diagnóstico precoce e acesso a cuidados de saúde multidisciplinares e integrados, entre outras medidas, podem ajudar a diminuir ou a retardar o risco do aparecimento das consequências associadas à doença, tais como enfartes do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais, falência renal, cegueira e amputação dos membros inferiores.

Uma resposta global e diferente para a diabetes é o desafio que a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal faz ao próximo Governo. Uma resposta assente em 5 passos estratégicos para lidar com as doenças crónicas, em particular com a diabetes:

  • O primeiro é saber quantas são e como estão as pessoas que vivem com diabetes, através do desenvolvimento de sistemas de registo e partilha de dados de saúde, a nível nacional e europeu. Só assim poderemos definir políticas adaptadas à nossa realidade com vista à redução do risco de diabetes e à criação de programas de gestão e de cuidados.
  • O segundo é saber onde estão, reforçando os programas de rastreio e de diagnóstico precoce, assim como os programas de intervenção educativa e motivadora para os autocuidados da doença, em conjunto com as autarquias, as comunidades, os diferentes agentes da sociedade civil e os cuidados de saúde de proximidade.
  • O terceiro é saber como são apoiados, assegurando a integração das doenças crónicas não só na agenda da saúde, mas principalmente na agenda social e de desenvolvimento. Os fatores sociais (pobreza, mau urbanismo, más condições de trabalho, p. ex.) estão associados a mais e pior doença. O suporte e o apoio social integrados com as respostas de saúde são fundamentais para que as pessoas com doenças crónicas atinjam resultados positivos na sua saúde.
  • O quarto é saber como prevenir, implementando políticas públicas que se dirijam aos fatores de risco modificáveis para ajudar a reduzir o risco ou a atrasar o desenvolvimento da diabetes e das suas consequências. É o caso de políticas de promoção da vida ativa, de acesso à alimentação saudável e de apoio à produção de produtos alimentares saudáveis, entre outras.
  • Por fim, saber como controlar. Os profissionais de saúde de proximidade são os que se encontram melhor posicionados para responder às necessidades das pessoas. O investimento em cuidados primários integrados é essencial para assegurar que as pessoas com diabetes vivam vidas longas e saudáveis. Este investimento deverá incluir o desenvolvimento de competências de educação e a implementação de consultas multidisciplinares nas estruturas de saúde de proximidade.

Estes são os pontos, que funcionando em conjunto, possibilitarão a mudança necessária para um combate efetivo à diabetes e às doenças crónicas, levando a uma sociedade mais saudável. Para que esta resposta exista, também é necessário uma estrutura diferente responsável, com capacidade de definição, implementação, acompanhamento e divulgação das medidas e dos seus resultados.

Alguém dizia: se queres saber como é um serviço de saúde de um país, pergunta-lhe como tratam a diabetes. Não é a pergunta que precisamos de fazer. É a resposta! Esse é o desafio para os próximos representantes e para o próximo governo. E nesse desafio a APDP quer voltar a estar na primeira linha.

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