DIÁRIO DE UMA EX-OBESA – IV

Sofia Grangeio

Uma história de superação. Confissões, vitórias e derrotas contadas na primeira pessoa. Todas as semanas, Sofia escreve uma crónica no site Escolher Viver.

Amanhã vai ser diferente!

“…renascia a vontade de voltar a tentar outra dieta milagrosa”. Foi assim que terminei a minha última crónica. Mas, tenho de o confessar, entre o querer tentar e o realmente fazer, decorria um tempo infinito em que a minha cabeça achava que tudo era permitido. O raciocínio era sempre o mesmo: “Já que estou assim, vou comer mais isto”. E comia. Comia até mais não! E lá voltava a repor os quilos perdidos e a minha sensação de culpa renascia todas as manhãs.

Aqui chegados, tenho a certeza que muitos dos meus leitores com excesso de peso conhecem este dilema, esta luta constante. É muito difícil explicar esta disfunção entre o querer e o fazer! Naquelas longas noites de insónia, em que projetos e mais projetos de recomeço se cruzavam na minha cabeça, era fatal abrir a porta do frigorífico ou despensa e devorar tudo ou quase tudo o que lá havia. E na minha cabeça bailava sempre o mesmo pensamento, à laia de auto-justificação. “É só desta vez, amanhã vai ser diferente!”, prometi a mim própria, vezes sem conta. Como contava o meu avô: Alguém escrevia no espelho: “amanhã começo o jejum” e o amanhã nunca chegava, era sempre o dia seguinte! E o amanhã era sempre igual! O espelho mostrava-me o que os tamanhos crescentes da roupa já faziam adivinhar. O tempo passava, e crescia a consciência de que quanto mais o tempo passava, mais peso ganhava e mais difícil se tornaria perdê-lo.

E já que falei em roupa, vamos lá a isso. Era difícil comprar roupa que me servisse. E muita da roupa que gostava, e que estava “na moda”, não me servia. E, quando servia, assentava-me muito mal. Então, uma vez mais fugia: refugiava-me na roupa larga e escura, quase sempre preta! Comecei a vestir sempre da mesma maneira, eu que gosto tanto de roupa de cor!!!

A obesidade começou a mexer muito com a minha vida, bem para além da parte estética. Fiquei hipertensa, sempre cansada e sem vontade de fazer nada. A vida tornava-se desmotivante e eu parecia inerte, não reagindo a nada. Fechava-me em casa, arranjando sempre desculpas, às vezes bem esfarrapadas, para não aceitar convites de jantares ou saídas, principalmente com os amigos que já não via há mais tempo. Refugiava-me no tabalho… Trabalhava, trabalhava, trabalhava… Julgo que foram os anos que mais trabalhei e que mais produzi.

Era nesta altura que eu passava horas na internet, tentando encontrar o último grito das dietas que conseguiam milagres sem qualquer esforço ou sacrifício da minha parte. Esqueçam! Pura ilusão! Sem grande esforço e sem a devida ajuda, é difícil lá chegar.

Até para a semana!

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