O LUTO NAS CRIANÇAS

Vanessa Santos

Psicóloga Clínica, inscrita na Ordem dos Psicólogos com o n.º 24323

Muito tem mudado ao longo dos tempos, no que diz respeito à educação e a uma variedade de temas que devem ser abordados junto das crianças. Contudo, a morte parece ser ainda um tabu, talvez pelo desconforto que o tema causa. É sobre esse tema difícil que vamos falar hoje.

Os adultos tendem a subestimar a compreensão que as crianças têm do conceito de morte, o que os leva, não raras vezes, a omitir informações. Este gesto apenas pode ser interpretado como manifestação de amor, numa tentativa de os proteger de uma realidade tão dura e que tanto sofrimento traz, bem como de proteger os próprios adultos do que estão a sentir. No entanto, este secretismo em torno da perda pode levar a que as crianças experienciem sentimentos de insegurança, pois permanecem colocadas à margem da situação. Aquilo que a criança pode imaginar sobre a morte pode ser mais assustador do que a realidade em si.

Mas afinal o que entendem as crianças sobre a morte?

O luto infantil está diretamente relacionado com a fase de desenvolvimento cognitivo em que a criança se encontra. Para as crianças em idade pré-escolar (entre os 2 e os 5 anos), a morte é vista como uma ausência temporária, bem como algo que não é universal, podendo ser evitada. As crianças nesta faixa etária apresentam um pensamento mais concreto e literal, recorrendo, com frequência, a um pensamento mágico. Assim, estas crianças podem pensar a morte como uma forma de dormir, sendo por isso, reversível. Nesta fase de desenvolvimento pode ainda ser difícil compreender o que significa “ir para o céu”.

As crianças já em idade escolar (entre os 6/7 anos, até aos 9/10 anos), começam a ter um entendimento progressivo sobre a permanência e irreversibilidade da perda. Contudo, o conceito de morte encontra-se ainda incompleto, o que leva a uma personificação da mesma, estando associada ao mal, à punição e ao escuro.

A partir dos 10 anos de idade, o conceito de morte torna-se mais abstrato, a morte é reconhecida como algo biológico e irreversível, integrando o ciclo da vida.

É natural que as crianças apresentem questões sobre a morte, face a uma experiência que tenha ocorrido nas suas vidas. Estas perguntas tendem a centrar-se em aspetos concretos e estão relacionadas com a curiosidade e com a capacidade cognitiva que têm, naquele momento, de compreender o ciclo de vida. Assim, tendem a formular questões que se focam no: a quem, porquê, quando e como.

Apesar dos receios que possam existir, as respostas dadas às crianças devem ser simples, concretas e honestas. Se à data, o adulto não tiver a informação necessária para responder às questões da criança, deve ser sincero e garantir que irá tentar saber e que lhe responderá assim que possível. Esta promessa deve ser cumprida. Deste modo, a criança irá sentir-se segura.

Se tiver que comunicar uma situação de perda a uma criança, prepare-se e esteja bem informado para as questões que esta possa colocar e seja verdadeiro e direto nas respostas. Ao dar a notícia, é importante estar num local tranquilo, familiar e confortável, para que a criança se sinta segura. Idealmente, num período calmo e sem distrações, que permita à criança colocar questões e em que possa ter tempo para refletir e falar sobre o assunto. Esta conversa não deve acontecer à noite para evitar perturbar o ciclo de sono.

Coloque-se ao nível dos olhos da criança e transmita as informações de forma adequada à idade. Pode ser importante abraçar a criança e confortá-la enquanto responde às suas questões. Garanta que nada do que ela fez ou pensou está na causa da morte, pois este pode ser um pensamento comum em algumas idades. É ainda importante informar a criança do que irá acontecer de seguida.

Não se deve falar da morte como sendo uma viagem ou um sono profundo, pois pode levar a que a criança venha a apresentar medos associados, como o medo de adormecer.  A morte deve ser explicada com base nos seus aspetos biológicos: como o facto de deixarmos de respirar, do coração deixar de bater, de já não sentirmos dor ou frio.

É ainda importante falar sobre a pessoa que morreu, sem receios de deixar transparecer as emoções que possam estar a ser sentidas como a tristeza e a saudade. Chorar em frente à criança, desde que de forma controlada, pode ser importante, pois estará a ser transmitida a mensagem de que a dor e a mágoa são aceitáveis e podem ser expressas. A capacidade da criança em processar a dor da perda é influenciada pela observação que faz dos adultos que a rodeiam. Se a criança sentir que os adultos à sua volta inibem a expressão emocional, optando pelo silêncio, a criança irá espelhar este comportamento e é provável que surjam queixas somáticas ou comportamentos desajustados como forma de expressar a dor. No outro extremo, se a criança vir o adulto a expressar a dor de forma demasiado intensa, pode ficar assustada e sentir-se insegura.

“Com a morte de um ente querido, o que adoece é o coração”, pelo que quanto mais partilhado e maior apoio for sentido, melhor será feito o processo de luto. Como se faz o luto? Falando e pensando sobre ele, de forma sincera, seja em que idade for.

Outras histórias que vai querer ler

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado.