O LUTO NO NATAL

Vanessa Santos

Psicóloga Clínica, inscrita na Ordem dos Psicólogos com o n.º 24323

Chegando a esta quadra natalícia parece que tudo se enche de magia, alegria e amor pelo outro. No entanto, há um lado que pouco se fala, talvez por desconhecimento ou pela dificuldade em gerir a dor. A nossa e a dos outros.

Por ser uma época muito dedicada à família e repleta de tradições, o Natal pode também estar associada a sentimentos de dor, perda e solidão.

Para as pessoas em luto, por exemplo, esta época pode funcionar com um trigger. Um trigger é um estímulo que desencadeia determinadas emoções e reações, que recorda da ausência da pessoa perdida. Qualquer estímulo pode funcionar como trigger, não tem necessariamente de ser o aproximar desta quadra festiva. Pode ser uma música, uma tradição, um objeto ou mesmo uma outra pessoa.

Porém, nem todas as perdas envolvem a morte. Pela recência dos acontecimentos, pode ainda estar a decorrer o processo de luto de uma separação: fim de relação, divórcio, mudança para outro país ou outras alterações na dinâmica familiar.

Assim, estes diferentes lutos envolvem não só a perda de uma pessoa, mas a perda de tradições, de certas dinâmicas e rotinas, bem como a perda de planos e sonhos futuros. O luto implica mudança. Depois da perda, seja ela de que tipo for, o mundo, como era conhecido, ficou transformado para sempre, pelo que é necessária uma reestruturação e redefinição do nosso próprio eu e da forma de estar na vida.

Numa fase inicial do processo de luto, é natural que surjam comportamentos de evitamento: evitar pensar, evitar lugares ou pessoas que tragam recordações associadas à perda. Este mecanismo de defesa, que visa atenuar a dor, tem uma função protetora, permitindo a regulação de todas as informações novas e desorganizadas que surgem.

No entanto, manter esta defesa a longo-prazo pode ter consequências graves. É de extrema importância estar em contacto com a dor. Aqui, o apoio social é fundamental, pois ajuda a tolerar a dor resultante dessa perda e incita à partilha e expressão emocional. Apesar de o luto ser um processo muito pessoal e de poder ser importante ter alguns momentos mais sozinho com os seus pensamentos, o isolamento prolongado deve ser evitado.

Sendo esta também uma época de esperança, resta-nos acreditar que este ano o Natal pode ser mais duro mas, no seu tempo, voltará a ser um Feliz Natal.

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