Portugueses comem o dobro do que deviam. Consumo de carne é quatro vezes maior do que o recomendado

Nuno Azinheira

Diretor do Escolher Viver

São sinais alarmantes sobre a forma como os portugueses se alimentam. Apesar de nos últimos cinco anos se ter reduzido o consumo de refrigerantes e aumentado a compra de fruta e legumes, o retrato-robot não permite descansar: comemos quatro vezes mais carne do que devíamos e ingerimos o dobro das calorias diárias recomendadas.

Os dados são do INE e estão inscritos na Balança Alimentar Portuguesa 2016-2020, um instrumento de análise estatística sobre o consumo alimentar em Portugal, revelado esta sexta-feira, no âmbito do Dia Mundial da Alimentação, que se assinala este sábado, 16 de outubro. E os números não permitem outra conclusão: comemos muito mais do que devíamos e de forma muito desequilibrada.

De acordo com o estudo, os portugueses consumiram, em média, duas vezes mais calorias do que o recomendando para um adulto entre 2016 e 2020. Atente-se nos valores, para termos a noção exata. Durante o período em análise, cada habitante ingeriu, em média, por dia 4 075 kcal, cerca do dobro do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde para um adulto saudável. Ainda assim, no último ano em análise (2020), já marcado pela pandemia, assistiu-se a um decréscimo de 3,6% face a 2019, correspondente a 3 990 kcal diárias.

Uma realidade que levou já a Ordem dos Nutricionistas a pedir intervenção rápida do Governo. “A Ordem dos Nutricionistas considera os dados “assustadores” e pede ação urgente ao Governo, exigindo que a política interministerial de promoção de uma alimentação saudável tenha mais ritmo e intensidade para acabar com as escolhas erradas que têm resultados nefastos para a saúde dos portugueses”, lê-se em comunicado.

A Balança Alimentar Portuguesa do INE continua a evidenciar um grande desequilíbrio entre o consumo real por português e as recomendações das autoridades de saúde. Como o gráfico revela, o consumo de proteína animal (carne, peixe e ovos) é superior às recomendações (11,9 pontos percentuais). Os portugueses também usam gorduras e óleos a mais (3,1 pp), bem como cereais, raízes e tubérculos (2,2 pp). No pólo oposto, os hortícolas estão em déficit face ao que é recomendado (menos 8,6 pontos percentuais), o mesmo acontecendo à fruta (-4,7) e às leguminosas (-3,3), ainda que em menor escala. O leite e seus derivados está em linha com o recomendado, de acordo com a análise do INE.

Carne no topo das preocupações

A ingestão de carne é um desporto nacional em Portugal. Comemos carne mais vezes do que devíamos e ingerimos maior quantidade do que era suposto em cada refeição. No período em análise (2016-2020), os portugueses consumiram em média 229,8 gramas se carne por dia, ou seja 83,9 kg de carne por habitante/ano. Contas feitas, a carne representa um consumo diário de 428,6 kcal por habitante, o que é quatro vezes mais do que o recomendado pela Roda dos Alimentos para o grupo Carne, Pescado e Ovos, tendo como referência uma dieta equilibrada com um aporte calórico médio de 2 000 calorias.

E que carne comemos nós?

A boa notícia é que nos cinco anos analisados aumentou o consumo de carnes brancas (“carnes de capoeira”, de acordo com o INE). Ou seja, entre 2016 e 2020, registou-se um aumento de 7,4% face ao período anterior. Só em 2020, ano de pandemia, o consumo de carnes brancas (frango, peru, pato, com menos gordura) registou uma média de 91 gramas por dia e habitante – mais 6,3 gramas do que se verificava em 2016.
Apesar de as carnes brancas continuarem a ser dominantes e o seu consumo continuar a subir, as chamadas carnes vermelhas (porco e vaca) também continuam a ter cada vez mais procura à mesa portuguesa. Seja por uma questão cultural, seja pelo preço, o consumo de carne de vaca cresceu 14,4% em relação ao período anterior, enquanto a carne de porco subiu 4,1% entre 2016 e 2018, e, boa notícia, decresceu em 2019 e 2020 (-9,5%).

A oferta de peixe aumentou 16,3%, e alcançou 62,7 gramas diárias por habitante, e os ovos 16,1%, com uma taxa média de crescimento anual de cerca de 4%. Em média, cada habitante comeu 178 ovos por ano, cerca de meio ovo por dia.

As quantidades diárias disponíveis de frutos por habitante dispararam 27%, mas o consumo médio diário de 278,7 gramas diárias por habitante ainda está aquém das quantidades recomendadas.

O consumo de hortícolas manteve-se relativamente estável, com cada habitante a consumir em média 285,8 gramas diárias (286,3 gramas em 2012-2015).

A Balança Alimentar Portuguesa revela ainda que a água é cada vez mais a bebida preferida dos portugueses. Pelo contrário, o consumo de refrigerantes e de bebidas alcóolicas decresceu de forma sensível, em particular no ano de 2020. A pandemia de Covid-19 e o encerramento dos estabelecimentos de diversão noturna serão uma boa justificação para esta descida.

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