Preservativo. O mal-amado que continua a salvar vidas em todo o mundo

Diana Rosa

Jornalista

É desagradável? Pois, talvez. Mas continua a ser a forma mais eficaz de prevenir o VIH/Sida e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST). Neste Dia Mundial da Luta contra a Sida, nunca é de mais recordar algumas das mais importantes DST. Mais vale não arriscar…

O preservativo surgiu no antigo Egipto há aproximadamente 3000 anos, e, na inexistência de latex, a sua primeira versão era feita de papel de seda embebido em óleo. Não parece ser muito confortável, mas aparentemente, nos tempos de faraós já existia uma preocupação com a gravidez, embora as doenças sexualmente transmissíveis ainda não estivessem identificadas. Já mais tarde, no século XVI, ao surgirem os primeiros avanços científicos no que diz respeito à análise das DST’s, foi o linho que tomou o lugar, mas desta vez humedecido com ervas e procurando combater o contágio de doenças. Dez anos depois, comercializou-se então o primeiro preservativo feito com membrana de intestino animal, que deu lugar à borracha vulcanizada em 1839, e foi já no século XX que surgem os preservativos em latex.

O preservativo tem um papel insubstituível no controlo das doenças sexualmente transmissíveis, e é extremamente importante relembrar que não é só para impedir uma gravidez que ele atua. Apesar de atualmente haver DST’s que passam um pouco despercebidas, a verdade é que elas continuam a existir, e não olham a géneros, orientação sexual, estrato social ou etnia.

Por isso mesmo, convém saber o que é que está a prevenir quando toma a boa decisão de colocar um preservativo num momento mais íntimo.

HIV – Vírus da Imunodeficiência Adquirida

Este vírus que causa a síndrome da imunodeficiência, mais conhecida por SIDA, ataca o sistema imunitário, deixando-o enfraquecido e vulnerável a doenças, perdendo capacidade de se defender naturalmente. Não tem cura, e embora já tenha sido encarada como uma sentença de morte, atualmente é considerada uma doença crónica com a qual se consegue viver uma vida normal, ainda que com cuidados específicos e controlo de fármacos, assim como acompanhamento médico. O HIV transmite-se essencialmente por via sexual, assim como por partilha de seringas, transfusões de sangue contaminado, ou através de leite materno. Vamos desmistificar aqui que o HIV não se transmite com um abraço, com um beijo, em sanitas ou em piscinas. Os sintomas mais frequentes desta doença são inchaço, dor, comichão e corrimento vaginal nas mulheres. Já os homens habitualmente sentem comichão e ardor no prepúcio peniano, desconforto no ato de urinar, uma membrana esbranquiçada e pastosa no pénis, assim como vermelhidão e manchas nesta zona. Normalmente o vírus não se manifesta logo nem é detetável de imediato, aconselhando-se que faça o teste cerca de três a seis meses depois da relação sexual desprotegida.

Sífilis

É uma doença que, apesar de ter cura, tem de ser tratada na fase inicial após o contágio. Caso contrário, torna-se um problema grave e imprevisível. A Sífilis é transmitida por contacto sexual desprotegido ou por contacto cutâneo com uma ferida de um indivíduo que esteja infetado. Esta doença tem três fases infecciosas, sendo que a primeira surge habitualmente após três semanas de se ter dado o contágio, e é caracterizada pelo aparecimento de uma ferida ou um nódulo que não provoca dor, desaparecendo ao fim de quatro semanas. O pior vem depois, porque numa segunda fase, a erupção cutânea dá-se por todo o corpo e aparece sem avisar, normalmente durante os seis meses seguintes. Estes sintomas na pele podem vir acompanhados por outros tais como dor de cabeça, garganta e febre. Além disso, tanto no homem como na mulher, poderão aparecer verrugas na púbis e na zona do ânus. O terceiro estágio infeccioso acontece quando o coração, cérebro e outros órgãos são atingidos, o que pode ser fatal. O tratamento é realizado através de antibióticos e, como referimos, quanto mais cedo melhor. Se não quer passar por isso, já sabe o que fazer, usar preservativo.

HPV – Vírus do Papiloma Humano

Este é um dos vírus com maior prevalência na população mundial, atingindo cerca de 80% dos humanos, e é transmitido por contacto sexual. Sabe-se hoje que 99% dos cancros do colo do útero são provocados pela infeção por HPV, estando em 4º lugar no tipo de carcinoma que mais mata mulheres todos os anos. Pelo seu carácter de contágio, a transmissão ocorre principalmente em adultos em idade sexual ativa, maioritariamente em jovens e adultos após os primeiros anos de início de atividade sexual. Em muitos casos, o sistema imunitário consegue neutralizar o vírus, mas para outras pessoas, a presença do HPV pode levar, não só ao aparecimento de cancro, como de doenças genitais de vários tipos. Atualmente existe a vacina contra este vírus, que já faz parte inclusivamente no Plano Nacional de Vacinação, estando disponível gratuitamente para jovens até aos 17 anos. Ainda assim, pode ser tomada em qualquer idade, sob aconselhamento médico. Mas a vacina não é um método de barreira. Por isso, não substitui o preservativo.

Candidíase

A candidíase é o resultado da proliferação do fungo de Cândida em grande quantidade ao longo da região genital. Pode ser transmitida por outros meios como o contacto com saliva, pele ou mesmo com uso de determinados antibióticos, mas o contacto sexual desprotegido também faz parte da lista. Os sintomas mais comuns nas mulheres são o corrimento vaginal espesso e com um odor ligeiramente fétido, comichão e vermelhidão vulvar, dor e ardor no ato sexual.

Nos homens os sintomas são semelhantes mas situados no pénis, aos quais se acrescenta o ardor ao urinar. Relativamente ao tratamento, de todas as doenças sexualmente transmissíveis, talvez seja o mais simples, mas deve ser feito em casal. É importante que consulte o seu médico para que lhe seja dada a terapêutica adequada, normalmente através de cremes específicos. Enquanto recupera, é importante que não faça lavagem com água muito quente, assim como o uso de gel íntimo com pH neutro, o uso de roupas confortáveis e folgadas, e a toma de alimentos com probióticos como iogurte natural ou kefir. A ingestão de muita água também é imprescindível.

Gonorreia

É uma infeção muito comum, que em fase precoce tem tratamento com antibióticos, mas requer especial cuidado porque em situações pontuais, esta doença pode afetar órgãos como a pele e o coração. O tratamento deverá ser feito pelo casal, para que não se volte a manifestar mais tarde. A gonorreia é uma bactéria transmitida via sexual, que se aloja em zonas húmidas e quentes como a vagina, o reto, a garganta ou o colo do útero. Os sintomas para homens e mulheres são semelhantes, e passam por infeção na garganta, olhos ou reto, dor a urinar, corrimento que pode ser branco, amarelo ou esverdeado, algum sangramento nas mulheres e dores nos testículos no caso dos homens.

Clamídia

A clamídia é uma doença que pode resultar em Doença Inflamatória Pélvica, provocando infertilidade, e é uma bactéria que afeta homens e mulheres, transmitida através de relações sexuais desprotegidas. Normalmente tem uma ação silenciosa, não apresentando sintomas, o que faz com que a maior parte das pessoas desconheça que contraiu a doença. Entre os sintomas mais frequentes, as queixas das mulheres prendem-se com dores abdominais, dor na relação sexual, sangramento e desconforto ao toque vaginal. Já os homens, por vezes apresentam os testículos inchados, corrimento turvo matinal, e maior vontade de ir à casa de banho.

O tratamento é feito com antibióticos.

Hepatite

Há várias hepatites, algumas com tratamento, outras não, dependendo do grau e do tipo da hepatite, e existe também a vacina contra a hepatite C. Na verdade, esta inflamação no fígado é uma das doenças mais facilmente transmissíveis a nível sexual, e quando o tratamento é possível, pode ser repartido por várias fases e durar meses, consoante a gravidade. Por existirem pessoas que não têm sintomas (e porque, no caso de hepatite A e B, a doença só se manifesta, no mínimo, seis semanas depois do contágio), existe uma elevada probabilidade de infetarem outro parceiro. Entre os sintomas que se manifestam geralmente, os mais comuns são pele amarelada, dor de garganta, tosse ou febre, náuseas, vómitos e dor abdominal, urina escurecida e fezes esbranquiçadas. Existem vários métodos de tratamento disponíveis, e por isso é o médico assistente que define qual a melhor opção. Mas vão desde os fármacos a tratamento a laser, ou mesmo cirurgia.

Estas são as principais DST’s, mas não são as únicas. Há outras doenças que não mencionámos aqui, como as verrugas genitais, tricomoníase, linfogranuloma venéreo, infeção por HTLV, donovanose e outras que vamos deixar para outro capítulo. O importante é que retenha estas informações e perceba que as doenças sexualmente transmissíveis existem, e a única forma de fugir delas é usar o preservativo. Todos os outros contracetivos, como os orais, os anéis vaginais, chips ou dispositivos, previnem apenas e só a gravidez. Mas não nos livram do perigo de ficar gravemente doente, seja com sintomas, ou silenciosamente.

O preservativo não está fora de moda, não é desnecessário, e lembre-se: as doenças sexualmente transmissíveis não têm cara, não existem só em pessoas que ache que têm mau aspeto, sejam pobres ou ricas, gordas ou magras, altas ou baixas, heterossexuais ou homossexuais. Os vírus e as bactérias podem estar em qualquer um de nós, mesmo sem sabermos.

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