Quando um filho morre, os pais nunca deixam de o ser

Vanessa Santos

Psicóloga Clínica, inscrita na Ordem dos Psicólogos com o n.º 24323

É a dor que ninguém quer viver. A dor das dores, porque contranatura e traumática. Raramente estamos preparados para a morte. Mas nunca mesmo quando se trata da morte de um filho. O sentimento de falhanço, a sensação de perda de expectativas e a culpabilização são reações habituais a seguir uma tragédia destas.

A morte, por si só, representa um marco na vida das pessoas, um ponto de viragem, pois, a partir desse momento, nada voltará a ser igual. É um choque com uma realidade verdadeiramente indesejável e irreversível.

Contudo, a morte de um filho é descrita por muitos como a mais complexa, dolorosa e traumática experiência com a qual o ser humano pode ter de vir a confrontar-se. Este representa o maior medo de muitos de nós.

Esta perda é geradora de consequências, tanto a nível individual como no contexto familiar, uma vez que a relação entre pais e filhos é pautada por uma grande intensidade a nível físico, psicológico e social. Assim, este tipo de rutura é, frequentemente, geradora de manifestações de luto profundo e prolongado, por vezes, com manifestações psicopatológicas.

Esta perda, já de si devastadora, desafia todas as crenças e o sentido que atribuímos à vida, uma vez que não segue o que consideraríamos um percurso normativo. Por isso mesmo, é considerada contranatura, pois vai contra a ordem natural das coisas e arrasta consigo inúmeras perdas secundárias: perda de sonhos e expectativas futuras, perda do equilíbrio familiar, perda da identidade enquanto pais.

É frequente o surgimento de sentimentos de culpa, uma vez que os pais consideram que falharam no seu dever de proteger o filho perdido, mesmo que nada pudesse ter feito para evitar este desfecho. Também pode emergir raiva, associada a uma sensação de impotência e injustiça e, por vezes, acompanhada de acusações ao outro elemento do casal, responsabilizando-o pela situação. Quando este cenário se verifica, é possível que se ocorram momentos de maior tensão entre o casal e menor coesão familiar.

Homens e mulheres apresentam formas diferentes de lidar com a perda. De uma forma geral, os homens podem apresentar uma tendência para se fecharem mais, não demonstrando e expressando as suas emoções e evitando falar diretamente sobre a perda.

Por outro lado, as mulheres, face a esta falta de comunicação, tendem a ficar emocionalmente mais reativas, levando a uma intensificação da dor. Apresentam uma maior necessidade de partilha e comunicação como forma de lidar com a angústia.

É esta disparidade na forma de elaborar o processo de luto que gera conflitos entre o casal. A compreensão desta diferença no momento de lidar com a dor pode promover a empatia e facilitar a aproximação de ambos os elementos.

Há uma sensação de vazio devido à importância que o papel parental representa ao nível da identidade individual. Desta forma, surge a necessidade de construção de uma nova identidade que irá incorporar esta vivência, pois jamais poderá ser esquecida. A seu tempo, será possível olhar para o mundo através de uma nova lente que levará à definição de novos significados e objetivos para a vida.

A relação com este filho não acaba, nem se perde. Ganha apenas novos contornos. Um filho morre mas os pais nunca deixam de o ser.

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