Não pergunte o peso a uma “baleia fora de água”

Nuno Azinheira

Diretor do Escolher Viver

O tempo ajuda a curar quase tudo. Esquece, atenua, suaviza, resolve. Mesmo os traumas. Embora alguns, e para alguns, a coisa possa ser mais difícil. “Baleia fora de água”. Têm noção do impacto que uma expressão destas dita repetidamente pode ter numa criança obesa de oito ou nove anos? Ou mesmo num adolescente de 12 ou 13? Eu ouvia-a dezenas, centenas de vezes. Eu e todos aqueles que tinham peso a mais. “Gordo”, “Badocha” ou mesmo “Piranha” (numa homenagem a esse clássico da TV dos anos 80 chamado “Verão Azul”) eram algo ainda aceitável, mas “baleia fora de água” deixava-me fora de mim. Era uma crueldade própria de crianças, eu sei, mas magoava. Ficava a repetir-se cá dentro, como uma matraca. Uma vez, explodi. Um parvalhão na escola chamou-me “Baleia fora de água” e eu, com um ar de superioridade intelectual e simulando indiferença perante o mimo, respondi-lhe: “Pois é, sou baleia fora de água, mas isto com uma dieta, passa. Agora, tu és um estúpido. E serás sempre um estúpido. Não há nada que possa melhorar isso”. E virei-lhe as costas. Ainda pensei que o gajo viesse atrás de mim: ou para insistir na conversa ou para me dar um murro, mas não. Ficou quedo e mudo. Provavelmente, a pensar no que lhe disse. Para mim, aquele foi um momento de viragem. Fiquei orgulhoso da minha resposta e decidi interiormente que não voltaria a deixar-me afetar por aquilo que de malicioso os outros dissessem sobre a minha aparência física. 

Se o tempo ajuda a curar quase tudo, a idade também ajuda a colocar quase tudo em perspectiva. E à medida que fui crescendo, aprendi a valorizar umas coisas em detrimento de outras, e a fazer das minhas fraquezas, forças. Percebi que a única forma de calar os outros é dando o melhor de nós. Foi assim que cresci profissionalmente. Procurando sempre fazer melhor. Tentando melhorar a cada erro cometido. É assim hoje ainda. Procurando refletir sobre o que faço (na profissão, na vida…), percebendo como posso melhorar.

Quando me perguntam por que razão só agora me passei a preocupar com a minha saúde, a minha resposta não é clara. Não sei. Eu já me preocupava antes, de vez em quando, mas intervalava a reflexão entre rissóis e folhados de Chaves. Com demasiada frequência, admita-se. O diagnóstico oficial da Diabetes, em 2016, foi o click, claro, mas dois meses antes já me havia inscrito no ginásio e tinha jurado a mim próprio que desta vez era a sério. E, sim, eu já sabia que era diabético. Os sintomas que eu tinha não me deixavam grandes dúvidas. Acho que há um momento para tudo. A idade ajuda-nos a perceber isso com mais clareza.

É bom, porém, não esquecer o que deixámos lá atrás. Por mais resolvido que eu, gordo, tenha crescido, é sempre bom não esquecer algumas coisas. Por mais que eu sempre me tenha despido na praia sem problemas de mostrar as banhocas e as mamas, há sempre uma “baleia fora de água” que vem à tona. Há sempre gente que olha de espanto quando se cruza à beira-mar connosco. Há sempre uns tipos que apontam o dedo e que dizem uma piada, seguida de gargalhada geral. E é por isso que resolvi escrever este texto.

E é por isso que escolhi o título que escolhi. Há cinco coisas que nunca se devem perguntar/dizer a um gordo (a não ser em ambiente clínico ou familiar, claro…):

– Quanto é que pesas?
– Não faças uma dieta, não…
– Estás outra vez mais gordo!
– Não tens espelhos lá em casa?
– Ouve lá, onde é que arranjas roupa desse tamanho?

As cinco perguntas revelam uma grande falta de sensibilidade. Um gordo sabe que é gordo. Um gordo tem espelhos em casa. Um gordo sabe que tem de perder peso. Um gordo sofre à procura de roupa para o seu tamanho e fica constrangido quando, numa loja, é obrigado a responder com um “pois, mas não chega” à frase da empregada “este tamanho dá de certeza para si, é o maior que temos cá”. Perante este momento, o gordo pensa: “porra, sou mesmo um bisonte! Nem mesmo o maior que eles têm cá dá para mim. Talvez vá ao Tecidos Vidal comprar pano para um toldo e faça uma túnica!”

Ao contrário do que muitos pensam e disseram na altura em que o programa chegou a Portugal, formatos como o “The Biggest Loser” (“O Peso Pesado”, SIC), entre outros, foram muito importantes para as cabeças portuguesas. Para as cabeças dos gordos, em primeiro lugar. É sempre bom sabermos que não estamos sozinhos no mundo e que há casos ainda mais graves dos que os nossos. Isto não resolve nada em nós, mas, acreditem, alivia. Um gordo que pesa 145 quilos olha com respeito para alguém que se expõe na televisão, que se pesa numa balança, e que vê aquilo marcar 173 quilos. Há uma identificação, uma espécie de projeção, quase uma irmandade. Em segundo lugar, e mais importante, creio que programas como “O Peso Pesado” vieram alertar os portugueses para a normalidade da obesidade mórbida. Normalidade no sentido de “há gente assim, que tem de lutar, que tem de sofrer”. Normalidade no sentido de “esta gente que está a conseguir isto merece o nosso respeito, o nosso aplauso, porque revela força de vontade, porque não tem receio nem vergonha de se expor”.

Os “The Biggest Loser” da vida chegaram por razões pouco samaritanas: é hipocrisia pensar que chegaram para ajudar o mundo. Não, chegaram porque toda a gente gosta de espiolhar pelo buraco da fechadura e ver “gente assim” (são obesos mórbidos, podiam ser anões, homens de quatro pernas ou mulheres de bigode). E isso gera audiências, numa indústria que movimenta milhões de euros como a televisão. Mas, apesar de tudo, ainda bem que chegaram, porque ajudaram os portugueses (e falo nos portugueses porque nos Estados Unidos a obesidade, por tão frequente e intensa, não é tabu) a olhar para esta realidade, a saber respeitar os gordos e a perceber que a obesidade é uma patologia, a acordar para a alimentação saudável, a despertar para o gravíssimo problema que, enquanto sociedade, temos em mãos chamado obesidade infantil.

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