SUGAR AND THE CITY – 2

Alice

Alice sofre há 20 anos de uma compulsão alimentar: é viciada em açúcar. É uma mulher verdadeira, que aceitou contar a sua história, sob pseudónimo. Assina uma crónica semanal no Escolher Viver, ilustrada por Beatriz Berger

O ano zero do enfardamento

Às vezes dou por mim a pensar quando é que esta compulsão começou. Acho que começou a formar-se em pequena. Vivia num ambiente demasiado rígido em que os doces estavam fechados à chave na despensa e era um pecado capital comer um. Este “não podes” vezes sem conta – e eu nunca fui uma criança gorda, era mesmo uma obsessão pela saúde – virava um sim sem regras quando ia para casa de uma ama depois de sair da escola.

Lembro-me perfeitamente de os lanches serem o ponto alto do meu dia – um leite de chocolate com biscoitos que enchiam um prato enorme, daqueles muito kitsch (naquela altura, era simplesmente piroso). Ela era uma daquelas pessoas para quem comer bem era comer muito (curiosamente não me lembro da estatura dela, só sei que me parecia muito velha). Era um segredo só nosso porque os meus pais não podiam saber. E pouco a pouco o açúcar foi adquirindo vários significados para mim: um ato de prazer, de rebeldia, de cumplicidade e, acima de tudo, o de fruto proibido, que é um cliché para os adultos, mas um desafio carregado de adrenalina para as crianças.

É por isso que não proíbo doces aos meus filhos de uma forma rígida e nunca os uso como recompensa. Explico-lhes por que motivos não devem abusar, mas também não deixo transparecer que estou muito preocupada com isso. E tem resultado porque são mais as vezes que me pedem cenouras ao lanche do que doces.

Quando saí da ama e comecei a ir sozinha para casa, adorava passar na padaria e comprar uma bola de Berlim com a minha mesada – o açúcar passou a ser um ato de miúda crescida. Quando na escola secundária comecei a ter de estudar a sério para os testes, o açúcar passou a ser um reforço da atenção. Aproveitava os momentos em que estava sozinha, antes de os meus pais chegarem, para comer os doces que quisesse, já que ao pé deles não poderia. Começou aí o grau zero do enfardamento.  Quando finalmente comecei a viver sozinha, o açúcar passou a ser um ato de independência. E o enfardamento já se tinha tornado uma compulsão, como o scroll que fazemos nas redes sociais em piloto automático. E o pior é que nada disto se tornava visível nas ancas porque fazia muito desporto. Até que deixei de o fazer. E o meu corpo vingou-se. 

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