SUGAR AND THE CITY – 4

Alice

Alice sofre há 20 anos de uma compulsão alimentar: é viciada em açúcar. É uma mulher verdadeira, que aceitou contar a sua história, sob pseudónimo. Assina uma crónica semanal no Escolher Viver, ilustrada por Beatriz Berger.

Se eu contasse as vezes que deixei de sair com amigos para ficar em casa a comer, ou que pesei na balança o que me dava mais prazer (e os doces ganharam), uma resma de papel não chegava. O busílis é que comer dá muito prazer e é uma gratificação imediata, ao passo que aquele corpo que desejamos ou aquele objetivo que almejamos – não passar o dia a pensar em comida – parece estar muito longe de alcançar.

Claro que é muito bom ir jantar fora com amigos – e eu faço isso muitas vezes – mas não teria tanta piada, nem para mim nem para eles, partilhar uma sessão de binge eating, do tipo rodízio de sobremesas non-stop. Eles ficariam chocados. Eu ficaria frustrada (porque, mesmo assim, acho que não teria coragem de comer a última fatia de bolo). Portanto, nunca comia doces em público, apenas sozinha: agora já consigo fazê-lo, o que é uma vitória.

A compulsão alimentar é um prazer solitário dificilmente ultrapassável por outros prazeres até conseguirmos contrariá-lo. É como aquela sensação de  aconchego num dia de inverno em que estamos no sofá com uma manta, sem ninguém a aborrecer-nos, a ver mais um episódio da nossa série favorita. Os dinamarqueses têm uma palavra para esta sensação: hygge. Ora, quem é que quer trocar isto pelo mundo ameaçador do lado de lá da janela?

O pior é que este prazer lixa-nos a vida porque, ao transformar-se num vício, influencia as nossas rotinas. Por exemplo, se sabia que ia sair mais tarde do trabalho, eu tinha de arranjar maneira de, ao pequeno-almoço, me aconchegar com o máximo de pastéis de nata. Se tinha de ir para casa trabalhar pela noite dentro, eu tinha de me ir abastecer primeiro ao supermercado com o máximo de doces que houvesse (e às vezes não havia nada de especial, mas trazia na mesma). Se tinha um jantar marcado, tinha primeiro que passar por casa para consolar o vício.

Mas o mais irónico é que eu via este meu próprio comportamento, que eu escondia, ser reproduzido em colegas minhas: as que puxavam de um cigarro por tudo e por nada eram valorizadas ou, pelo menos, não eram criticadas; a sua dependência era sinónimo de foco e concentração ou de simples gestão das emoções; as que puxavam de um pacote de bolachas para o mesmo fim eram simplesmente… as gordas. É lixado, não é? 

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