SUGAR AND THE CITY – 5

Alice

Alice sofre há 20 anos de uma compulsão alimentar: é viciada em açúcar. É uma mulher verdadeira, que aceitou contar a sua história, sob pseudónimo. Assina uma crónica semanal no Escolher Viver, ilustrada por Beatriz Berger.

Nas duas últimas crónicas, acabei por me desviar um pouco da minha história de vida, mas volto a ela agora. Passei a universidade toda a ter episódios de compulsão alimentar sem que ninguém suspeitasse de nada. Como é que se faz? Com muito foco. Às vezes penso que se depositasse tanto foco e energia a ganhar dinheiro já estaria milionária (mas ironicamente nunca tive vontade de o fazer). O foco não era na compulsão, era em como o esconder.

O que é que era preciso esconder e de quem? A compulsão poderia ser visível de forma muito simples: restos de comida em casa, como embrulhos de chocolates ou caixas de bolos. Comia à noite no meu quarto (por exemplo, o que tivesse conseguido trazer do supermercado que coubesse na mochila) e escondia os embrulhos novamente na mochila e depois tinha de os deitar fora, no dia seguinte, no caixote do lixo na rua.

Outra forma de a compulsão se tornar visível era, naturalmente, no corpo. Não poderia engordar para não ter de dar explicações a ninguém. Então pesava-me de manhã todos os dias. Se aumentava um quilo, lá ia eu esfalfar-me para o ginásio ou estava uns dias em dieta restritiva – para depois voltar tudo ao mesmo. Escondia isto dos colegas, dos amigos, dos familiares, porque não comia doces à frente de ninguém.

Não é só a compulsão que dá cabo de nós. É outra coisa.  É andarmos todos os dias com o segredo às costas, do qual nos envergonhamos, do qual estamos sempre a tentar apagar todas as pistas ou sempre com receio de que alguém descubra. É um dia a dia desgastante e triste. Hoje olho para trás e não sei como era feliz neste paradoxo. Sinto um misto de pena da pessoa que era, mas também de orgulho por ter superado isto (durante anos pensei que era simplesmente impossível).

E não me venham com a conversa de que uma pessoa com acesso a educação, com pais que não sejam da classe baixa, deveria ter capacidade de superar isto. Não tem. É um problema de adição que só é superado com ajuda profissional. Metam isso na cabeça. E do vosso lado, também sentem que a comida está a dar cabo da vossa vida? Partilhem, mas façam isto: respondam já no passado.

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