SUGAR AND THE CITY – 6

Alice

Alice sofre há 20 anos de uma compulsão alimentar: é viciada em açúcar. É uma mulher verdadeira, que aceitou contar a sua história, sob pseudónimo. Assina uma crónica semanal no Escolher Viver, ilustrada por Beatriz Berger.

Sabem o que é o body shaming? À letra, significa ter vergonha do nosso corpo. Mas o que as outras pessoas dizem ou fazem para nos levar a ter essa vergonha também conta… e conta muito. Comigo aconteceu muitas vezes (ainda acontece), mas antes de vos falar disso, vou introduzir aqui outro tópico de conversa muito menos vulgar, mas igualmente esmagador. Poderia chamar-lhe body schocking ou o ato de me assustar ao levar com doses de realidade corporal.

Parece uma partida do nosso cérebro e é – serve para nos levar a comer mais. Houve uma altura da minha vida em que a compulsão alimentar me levou a pesar 20 quilos acima do considerado normal. E a minha reação era digna de um episódio do The Twilight Zone.  Olhava-me ao espelho e pensava: “não estou assim tão mal”. Esta frase era a carta branca para continuar a fazer tudo o que me apetecia.

Claro que as calças não subiam, o fecho não apertava, a blusa não cabia, mas eu lá sustinha a respiração e andava literalmente a rebentar pelas costuras daquele tamanho de roupa. Desde que não passasse do 40 e… (não digo), estava tudo bem.

E depois, depois vinham os momentos reveladores que me tiravam de um transe no qual eu tinha andando bem com o meu corpo. Esses momentos eram os tais body schocking: para umas pessoas pode acontecer quando vão a um provador e o tamanho habitual não lhes serve, para outras quando alguém lhes diz que está gorda. Lembro-me perfeitamente do primeiro que tive. Foi por causa de um casamento. Os meus pais andavam há tempos a dizer-me que eu tinha de emagrecer, mas eles já mo diziam quando eu tinha dois quilos a mais, portanto nunca lhes dava crédito. Ora, como todo o casamento que se preze, houve fotógrafo e centenas de fotografias. E eu tirei, pelo menos, duas com os noivos e com a noiva.

Uns dias mais tarde, quando recebi as fotografias, tive um choque, daqueles tipo pah, pah, pah. Aquela pessoa na fotografia não era eu – era uma versão muito maior, larga e imensa de mim. Desviei logo o olhar e tentava a todo o custo não pensar nela, mas aquela dose de realidade corporal não me largava. Como é que naquela fotografia eu era tão diferente da Alice que se olhava ao espelho todos os dias e que achava que “não estava assim tão mal”? Eu estava mal. E muito mal.

Infelizmente, aquele choque não foi suficiente para parar de comer compulsivamente. A estratégia foi outra: evitar tirar fotografias. E é pena porque ainda foram alguns anos sem aparecer em nenhuma fotografia do pescoço para baixo. Começou aqui o body shaming, que prometo revelar na próxima crónica.

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