SUGAR AND THE CITY – 7

Alice

Alice sofre há 20 anos de uma compulsão alimentar: é viciada em açúcar. É uma mulher verdadeira, que aceitou contar a sua história, sob pseudónimo. Assina uma crónica semanal no Escolher Viver, ilustrada por Beatriz Berger.

Queridas companheiras e companheiros desta batalha doce. Desculpem a minha ausência nestes últimos dias. Não foi uma recaída, pelo contrário. Andei tão cheia de afazeres (e uma das minhas crianças ficou doente) que nem me lembrei de comer. Espero que tenham sentido a minha falta, é sinal de que estou a fazer a diferença na vida de alguém… Se fizer numa só já é uma recompensa! A partilha, aliás todo este website assenta no princípio da partilha, é a maior arma para nos inspirarmos mutuamente. Os vossos comentários também são valiosos para eu me manter neste percurso. Comentem, também quero conhecer a vossas histórias.

No meu último desabafo ia falar de bodyshaming e depois o meu cérebro tomou um atalho. Regresso agora a este tema que me é tão familiar. Não fui eu que comecei por ter vergonha do meu corpo, foram os outros que me incutiram isso de diversas formas: aquela amiga que era magrérrima, mas dizia que tinha de perder dois quilos; o amigo que, no meio de uma conversa, me dizia que se orgulhava de eu não me importar de ter uns quilinhos a mais (quando eu nunca tinha falado sobre o assunto); e, claro, o namorado…

Tive um namorado que lidera a lista das pessoas curtas de cérebro (para não dizer de tudo o resto). Namorava com ele há quase um ano quando passei por uma crise de compulsão tão grande que engordei quase 10 quilos em quatro ou cinco meses. E ele, em vez de me perguntar o que se passava, mandava-me umas bocas de vez em quando. Um dia, no meio de uma discussão, proferiu uma sentença de acusações: que eu me tinha desleixado, que já não me reconhecia, não tinha orgulho em mim e que, inclusive, estava a deixar a vida passar-me ao lado. Portanto, toda a minha vida (e a vida com ele) se reduzia ao facto de eu ter engordado uns quilos. E a verdade é que uns tempos depois ele foi à sua vida (com outra rapariga de tamanho S).

Na altura, aquilo doeu-me e, claro, apetecia enfiar o meu corpo numa máquina de secar roupa para o encolher. Mas estava nos meus 20 e poucos anos, numa altura em que ainda somos muito influenciáveis. Se fosse hoje, tinha-o mandado dar uma volta naquela noite.

Por que raio é que as pessoas com peso a mais são sinónimo de desleixo, preguiça ou falta de auto-estima? Para mim, somos precisamente o contrário, porque exercitamos muito a resiliência, o respeito pelo outro e a aceitação. E também somos bonitas e atraentes com quilos a mais ou a menos. Nas minhas paixões nunca tive uma check list em relação ao peso e tenho pena das pessoas que o fazem. Pode passar-lhes ao lado a paixão das suas vidas.  Se há coisa de que tenho certeza é que o amor não se mede ao quilo.

Outras histórias que vai querer ler

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado.