SUGAR AND THE CITY

Alice

Alice sofre há 20 anos de uma compulsão alimentar: é viciada em açúcar. É uma mulher verdadeira, que aceitou contar a sua história, sob pseudónimo. Assina uma crónica semanal no #Escolher Viver, ilustrada por Beatriz Berger

Ilustração: Beatriz Berger

As aparências enganam

Se eu não vivesse numa grande cidade, provavelmente o meu segredo, de há uns bons 20 anos, já se tinha tornado insustentável. A metrópole tem sido cúmplice, porque me dá um certo grau de anonimato ou pelo menos fragmenta as minhas ações. Se eu vivesse numa aldeia, como é que poderia, a caminho de casa, passar quase diariamente por três pastelarias diferentes e, ao todo, pedir para embrulhar dois pastéis de nata, duas bolas de Berlim, um mil folhas, um palmier recheado ou outro bolo do momento sem ninguém reparar? Há uma imagem a manter perante os outros.

O açúcar sempre foi o meu companheiro para tudo – para lidar com a tristeza, a alegria, a ansiedade, os trabalhos, os prazos – até que chegou a um ponto que todo o meu dia a dia se organizava à volta dele, como qualquer outra droga (para quem não sabe, o açúcar é uma adição).

Há uma consequência visível desta vida doce:  o excesso de peso. E aí entra-se numa batalha perdida: tenta-se mil dietas, ao mesmo tempo que se lida com “olhares” de reprovação ou com o mítico discurso “basta força de vontade” (esta expressão deveria implodir). Não, não basta, porque o problema não é o excesso de peso, mas o que o provocou, e para lidar com esta gente amarga  acabamos por confiar em quem nos conforta e nos dá algum prazer,  mesmo momentâneo: mais uma tablete de chocolate.

É por isso que olho com algum ceticismo para as campanhas trendy de aceitação de corpos muito obesos. Uma coisa é aceitarmos o nosso corpo e sentirmo-nos bem com ele –  seja um rabo maior ou mais pequeno, um peito descaído, sejam quilos a mais ou a menos –, outra é achar que a obesidade é uma coisa espetacular. Não é. Não é pela gordura em si. É pelos problemas que por vezes ela esconde e que nunca serão tratados se forem camuflados por um clima de aceitação e #hashtags de glorificação.

O meu IMC, que já chegou a uns valentes 32 (agora está nos 26), esconde um problema de compulsão alimentar  diagnosticado há alguns anos. Como tantos outros casos que andam por aí. Um tratamento que envolveu psiquiatria e psicoterapia devolveu-me o controlo da minha alimentação, mas, sobretudo, da minha vida. Nos próximos meses, vou partilhar a minha história e, quem sabe, inspirar-te a agir, se for disso que precisas. Se vives na grande cidade, quem sabe até se já não nos cruzámos por aí.

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