SUGAR ANT THE CITY – 3

Alice

Alice sofre há 20 anos de uma compulsão alimentar: é viciada em açúcar. É uma mulher verdadeira, que aceitou contar a sua história, sob pseudónimo. Assina uma crónica semanal no Escolher Viver, ilustrada por Beatriz Berger.

Em estado de looping

As palavras que se seguem têm bolinha. Só podem ser lidas por quem já tentou mais de 45.385.957 dietas ou por quem já disse 64.848.263 vezes que ia fazer dieta no dia seguinte depois de sair do provador da Zara. Ou por quem já pensou 5.474.848 vezes em fazer dieta, mas não passou da manhã seguinte. Só estes  leitores e leitoras é que vão entender o que significa andar num estado de looping toda a vida – dizer que se vai fazer uma coisa, andar com aquilo na cabeça, não fazer, culpabilizar-se por não fazer, voltar a prometer a si mesmo que vai fazer, fazer durante uns dias, desistir, andar com aquilo na cabeça, não fazer, culpabilizar-se por não fazer…

É como andar à roda com a própria vida. No entanto, eu fiz isso durante anos (e já consigo identificar os gatilhos que me podem colocar nesse looping novamente). A compulsão alimentar é tão eficaz como um algoritmo, tão sedutora como uns Louboutin e, acima de tudo, hipnotizante. Poderia acordar uma manhã e dizer “merda, isto está a lixar-me a vida, a saúde, tudo, tenho de fazer qualquer coisa”, mas à tarde era como se o meu cérebro fechasse as portas e não cumprisse as ordens que tinha dado anteriormente. E eu já não tinha energia para combater esta vontade que contradizia o desejo de horas atrás.  

Por isso, esqueçam o amanhã. O amanhã não existe, não resulta. Só serve para vezes sem conta legitimarem mais uma noite de enfardamento e comerem tudo o que vos apetecer com a desculpa de que amanhã vão começar a dieta. Até podem começar, mas é grande a probabilidade de, por sua vez, ela não durar até à manhã seguinte. Comigo só resultou quando alguém (um profissional, claro) me disse que o objetivo não era tirar o açúcar da minha vida, como se fosse terminar uma relação. Era poder, num futuro, comer sem excessos. No fundo, melhorar uma relação sem ter de a perder. E isso fez toda a diferença para mim. Mas isso fica para uma das próximas conversas. Enquanto isso, deixem o looping só para as músicas que não se cansam de ouvir.

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3 Comments

  • Bem feito. Bem escrito. Bem pensado. Só por hoje não vou cair na tentação. Por mim. Obrigada.😘

    • Muito obrigado, Leonor. É bom saber que gosta dos nossos conteúdos. Isso, não caia em tentação. Pelo menos, hoje. Dia a dia. Por si. 😘

  • Excelentes crónicas ! Estou a adorar acompanhar ! Quando nos revemos a 100% nestes testemunhos e conhecemos de facto esta realidade que muitas vezes a maior parte dos que nos rodeiam não entendem. Ajuda-nos a pensar que é possível, que com a devida ajuda podemos lá chegar, por mais difícil que seja…

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