Um em cada 100 bebés nasce em Portugal com um problema no coração. Porquê?

Luís Baquero

Cirurgião cardiotorácico e Coordenador do Heart Center do Hospital da Cruz Vermelha

Os problemas cardíacos não acontecem apenas aos adultos. Já vimos que também os mais novos podem ter enfartes do miocárdio. Mas hoje vamos falar daqueles que já nascem com uma malformação no coração. Há causas que podem contribuir para esta realidade.

Entendemos por cardiopatias congénitas as malformações do coração e das grandes artérias presentes nos bebes ao nascer. São as alterações mais frequentes em Portugal e, provavelmente, no mundo.

Em Portugal, a média de crianças com alterações cardíacas de nascimento é aproximadamente de oito por 1000 nados-vivos. Embora nos últimos anos tenhamos visto um aumento dos nascimentos com alterações congénitas de todo tipo, as malformações cardíacas ainda não ultrapassaram 1 de cada 100 nascidos vivos.

Estima-se que uma em cada quatro cardiopatias congénitas é, suficientemente crítica, para que seja necessária alguma intervenção cirúrgica ou percutânea ao nascer ou durante o primeiro ano de vida.

Apesar dos avanços no diagnóstico pré-natal, nem todas as cardiopatias congénitas críticas são passíveis de diagnóstico in útero, ou seja, durante a gestação. Por outro lado, nem todas as mulheres têm uma adequada vigilância da gravidez.

No que se refere às causas que provocam estas doenças cardíacas de nascimento, na maioria dos casos não se conhece a causa exata que provoca estas malformações.

Alguns fatores que poderiam estar relacionados com estas situações já são conhecidos, como a ingestão de alguns medicamentos durante a gravidez, as radiações ionizantes, algumas infeções maternas como a rubéola, a toxoplasmose e outras doenças crónicas como a hipertensão arterial e a diabetes tem também alguma influência. O aumento importante de mulheres com mais de 40 anos que optam por uma maternidade mais tardia também tem um aumento associado do risco de  alterações cromossómicas nos bebes como o Síndrome de Down (Trisomia 21), o Síndrome de Turner, Noonan e outros que estão sempre associados a cardiopatias congénitas mais ou menos graves.

Outros fatores de risco identificados são os fatores genéticos, o facto da própria mãe estar afetada por uma cardiopatia congénita aumenta o risco do bebe padecer de uma cardiopatia congénita. Este risco aumenta de 3% a 5 % aproximadamente.

Em Portugal pode ser observada uma assimetria regional na distribuição destas cardiopatias congénitas, sendo que segundo os últimos dados 3/1000 foram nascidos no Alentejo e Lisboa e Vale do Tejo, 4/1000 no Norte e Açores, 5/1000 na Madeira, 6/1000 na região Centro e 7/1000 no Algarve.

Em Portugal, quer no sistema público quer no sistema privado, existem unidades de cardiologia pediátrica e cirurgia cardíaca de cardiopatias congénitas com a capacidade e a experiência necessária para tratar qualquer malformação congénita, independentemente da gravidade da doença ou da idade dos doentes.

Os defeitos menos graves ou complexos hoje em dia podem ser tratados por intervenção percutânea ou por cirurgia cardíaca mini-invasiva sem necessidade de abrir o esterno através de uma incisão axilar, ou seja, escondida por debaixo do braço, melhorando não só a recuperação dos doentes após cirurgia como as sequelas ou estigmas que alguns doentes podem sofrer pela cicatriz mais invasiva de uma cirurgia convencional.

Este conteúdo foi publicado no âmbito da parceria entre o site Escolher Viver e o Hospital Cruz Vermelha.

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