Vamos lá acabar com a confusão! Afinal, qual a diferença entre um vegetariano e um vegano?

Diana Rosa

Jornalista

Anda pelas bocas no mundo, mas nem sempre no prato. O vegetarianismo é cada vez mais uma curiosidade de quem se interessa por uma alimentação saudável, mas nem todos sabem as diferenças das principais variantes em cima da mesa. Novos restaurantes surgem a toda a hora com opções verdes e saborosas, e não existem dúvidas que há cada vez mais portugueses a adotar estas opções.

E é disso que vamos falar hoje. Quer queira optar por uma dieta mais flexível ou render-se totalmente a este estilo de vida, neste artigo vai ficar finalmente a perceber do que se trata o vegetarianismo e o veganismo. Mas não sem antes contextualizarmos esta prática.

O vegetarianismo é hoje considerado uma filosofia alimentar. Mas segundo alguns antropólogos, já remonta à era pré-histórica. Durante muitos séculos, o homem era essencialmente vegetariano, e só com o avanço das gerações é que a carne começou a ser introduzida na sua alimentação. O vegetarianismo tem a sua origem na Índia, em consequência das suas tradições filosóficas, onde hoje mais de um terço da população é assumidamente vegetariana. No entanto, esta prática expandiu-se um pouco por todo o território oriental, tendo sido estendido ao Ocidente sob a doutrina pitagórica, em referência a Pitágoras, que era um precursor do vegetarianismo ético no Ocidente. Os princípios desta doutrina defendem a noção de pureza e respeito pelos animais, não permitindo o seu sacrifício. Já em Portugal, desde o início do século XX que esta é uma prática comum. Voltando ao ano de 1908, em que aconteceu uma revolução vegetariana no nosso país, foi o médico portuense Amílcar de Sousa, especializado na área dietética e nutricional, que conseguiu convencer a burguesia da cidade do Porto a adotar uma alimentação saudável e um estilo de vida mais natural, ajudando-os a descobrir um mundo gastronómico onde não havia lugar para a carne nem peixe.

Um ano depois surge a revista “O Vegetariano”, que com cerca de 4 000 subscritores chegou a ser falada a nível internacional. Entre os participantes nesta revista, estava um coletivo de médicos e investigadores que explicavam o vegetarianismo e davam conselhos úteis para a sua prática, publicavam artigos científicos, e explicavam os benefícios de adotar um estilo de vida mais natural e consciente.

E foi a partir daqui que surgiu a primeira Sociedade Vegetariana de Portugal, e aos poucos, a população foi descobrindo os benefícios de se alimentar desta forma.

De facto, esta é uma tendência crescente em Portugal, onde cerca de 10% da população já é vegetariana e estima-se que este número continue a crescer de forma exponencial nos próximos anos. Na sua essência, um vegetariano é alguém que baseia a sua alimentação em legumes, leguminosas, fruta, cereais, algas, frutos secos, sementes, entre outros, que podem, ou não (já vamos ver mais à frente) consumir derivados de animais, sendo que qualquer tipo de carne ou peixe estão completamente fora de hipótese.

Depois desta contextualização, e agora que já temos uma noção das origens do vegetarianismo, vamos conhecer quais são as diferenças entre a prática vegetariana convencional e o veganismo.

Vegetarianismo

O vegetarianismo, ou lacto-ovo-vegetarianismo, é um tipo de alimentação com base vegetal em que a carne, peixe e marisco não entram. Isto acontece principalmente por uma questão de saúde, mas também pela preocupação com os animais, pelo clima e preservação da natureza, embora não tenha uma base tão fundamentalista como o veganismo, de que vamos falar de seguida. Essencialmente, o vegetarianismo procura um equilíbrio saudável da alimentação. Há muitos pratos tradicionais que podem ser adaptados à alimentação vegetariana e que são bastante saborosos e ricos em nutrientes. O bom da dieta vegetariana é que é pobre em gorduras saturadas, que é um dos grandes malefícios da alimentação carnívora e que provocam mais doenças como obesidade, hipertensão, cancro e por aí fora. Mas não é por isso que deixa de ter uma alimentação variada e completa em termos nutricionais. Neste estilo alimentar estão incluídos os ovos, leite, iogurtes, queijo, mel e outros produtos derivados de animais. Os vegetarianos comem de tudo, menos as carnes, e os seus pratos são tipicamente parecidos com os pratos convencionais na nossa cultura, só com a diferença da ausência de carne. Desde salteados a gratinados no forno, saladas ou sopas, há uma variedade infindável e completa de receitas que lhe conferem vitaminas, minerais, proteínas (sim, proteínas) e todos os outros nutrientes necessários a uma alimentação equilibrada.

Veganismo

Já o veganismo é uma sub-vertente mais restrita, em que não são consumidos quaisquer produtos que tenham origem animal, nem mesmo o mel das abelhas. Aqui não entram ovos nem laticínios, e as opções disponíveis são menos variadas. Na dieta vegana qualquer derivado animal é proibido, e este estilo ultrapassa muito as preocupações com a alimentação, sendo uma filosofia de vida que envolve as várias atividades do dia a dia e os consumos que fazemos.

A defesa dos animais neste caso é uma preocupação constante, e um dos exemplos é que os veganos não usam quaisquer tipos de roupa ou acessórios fabricados em pele. Para além disso, também não consomem cremes ou outro tipo de produtos cosméticos testados em animais.

Hoje em dia já é muito comum ver símbolos de “cruelty free” (livre de crueldade) em rótulos de vários produtos como champôs, hidratantes, entre outros, dando a indicação de que o fabrico daquele produto não sacrificou nenhum animal. A PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) lança regularmente informação sobre quais as marcas que se podem consumir com a segurança de não terem sujeitado animais a qualquer tipo de testes.

Para principiantes: Por onde devo começar?

Vamos lá então saber!

Se quer iniciar a sua descoberta vegetariana, um dos conselhos que podemos deixar desde já é consultar um nutricionista que pode indicar-lhe a melhor maneira de substituir a proteína no seu plano alimentar. Sabemos que sementes, leguminosas, fungos (como cogumelos) e frutos secos são fontes ricas em proteína. Mas não se perde nada se quiser obter mais aconselhamento profissional. Depois, a variedade é a base de toda a alimentação interessante do ponto de vista nutricional, assim como do prazer que temos à mesa. Por isso, comece por pesquisar a imensidão de receitas vegetarianas que existem atualmente e que o vão deixar deliciado, além de que vai descobrir maneiras muito boas de aproveitar os alimentos de fio a pavio, sem desperdício.

É uma alimentação mais cara?

Não. Se for a fazer contas ao preço da carne e do peixe, assim como do marisco, vai perceber que a alimentação vegetariana não é mais dispendiosa, principalmente se escolher produtos da época, que além de lhe pouparem a carteira só lhe trazem benefícios à saúde. Sim, o tofu e as bebidas vegetais são a exceção, porque acabam por ser mas caras do que o leite convencional. Mas à medida que o tempo vai avançando e a procura por estes produtos aumenta, também eles começam a existir a preços mais competitivos.

Como substituir as carnes?

Entre os alimentos mais comuns estão os ovos, leguminosas, frutos secos, soja, tofu e seitan. Há uma variedade enorme de alimentos com proteína que pode verificar com um nutricionista, aqui nos nossos artigos do Escolher Viver ou nos rótulos dos produtos alimentares.

Já se quiser optar pelo veganismo, que não contém ovos ou lacticínios, estes podem ser substituídos por alimentos equivalentes com derivação vegetal ou se soja, como por exemplo o leite de amêndoa e as bebidas de aveia ou arroz.

Existem outros subtipos de vegetarianismo como os lacto-vegetarianos (que comem laticínios, mas não ovos) ou os ovo-vegetarianos (que consomem ovos mas não laticínios), mas estes dois estilos que falámos aqui são os todo-poderosos do mundo sem carne.

Há também uma opção cada vez mais comum atualmente, que é o chamado flexitarianismo, que significa que a pessoa diminui drasticamente o consumo de carne e peixe, comendo apenas estes alimentos esporadicamente e fazendo uma base alimentar essencialmente vegetariana na maior parte do tempo. Embora seja uma opção interessante e mais saudável do que comer carne diariamente, principalmente para quem está a descobrir este mundo mais verde, não pode ser considerada uma sub-vertente do vegetarianismo. Mas como nós aqui dizemos, cada um é livre de adaptar a sua realidade à sua medida! Nós estamos aqui para o informar das opções existentes para que faça escolhas conscientes e, se possível, mais saudáveis.

Seja qual for a sua opção, lembre-se que nos legumes, leguminosas, cereais e fruta, estão a maior parte das vitaminas, minerais, fibras e proteínas essenciais à nossa saúde. Componha o seu dia a dia com muitos destes alimentos coloridos e deixe-os ser os atores principais no seu prato ao almoço e ao jantar. Ao longo do tempo, o Escolher Viver vai publicar receitas deliciosas para quem quer sucumbir aos prazeres do vegetarianismo de forma mais saborosa e equilibrada!

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